‘A crise climática não é prioridade para os políticos’

Na Raps, predomina um perfil de políticos de centro. Há alguma dificuldade em dialogar com a direita e com a esquerda?...

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Por Agência Estado

É preciso deixar de tratar a sustentabilidade e o meio ambiente apenas do ponto de vista do fatalismo e usar a perspectiva econômica para que eles se tornem uma pauta também da direita. É o que pensa a cientista política Mônica Sodré, diretora executiva da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps). A seguir, trechos da entrevista.

Na Raps, predomina um perfil de políticos de centro. Há alguma dificuldade em dialogar com a direita e com a esquerda?

Em princípio, nenhuma. A rede de membros no Congresso Nacional é composta de duas formas. A primeira são as pessoas ligadas à organização que se elegem e a segunda é um processo anual de incorporação de novas pessoas todos os anos. O senador Fabiano Contarato (PT-ES), por exemplo, chegou em 2021. Temos quatro membros do Novo. Nossa capacidade de diálogo e atração dos diferentes não está restrita à eleição.

No caso dos governadores, cinco ligados à Raps foram eleitos: três do PSDB, um do PSB e um do Solidariedade. A sustentabilidade atrai mais políticos com o perfil desses partidos?

Sustentabilidade e clima são questões em geral percebidas como ligadas à esquerda e esse é um desafio que a Raps precisa superar. Há um trabalho de mostrar, quando falamos de clima na semana da COP-27, que esse assunto não é do futuro, mas do presente. A crise climática é uma crise política e, infelizmente, ela não é uma prioridade dos políticos. A Raps tem uma pesquisa de 2021 com 156 deputados federais e senadores. Quando perguntados o que acreditavam que devia ser a prioridade número um para combater o aquecimento global, eles responderam que devia ser investimento em energia renovável. Mas a gente sabe que 40% das emissões de gases de efeito estufa vêm da mudança do uso da terra e quase 80% disso é desmatamento. Energia renovável é importante, mas o combate ao desmatamento deve ser a medida número um.

Mesmo com o peso do Executivo para determinar a pauta do Parlamento, a próxima legislatura terá predominância da direita. Que impacto isso terá para se destravar a pauta da sustentabilidade ali?

Há o poder de agenda do Executivo. Quando você tem um Executivo comprometido com determinadas pautas é muito mais provável que elas caminhem. Executivo comprometido com a pauta ambiental – e a pauta da sustentabilidade vai além da ambiental -, como o presidente Lula vem dando sinais, favorece essa pauta no Congresso. Com os grupos mais à direita, tratamos da sustentabilidade a partir da perspectiva econômica. Aliás, quando a gente fala de clima, a gente precisa mudar a narrativa e a chave e parar de tratá-lo pela ótica do desastre, saindo do fatalismo de que estamos aquecendo a uma velocidade que é incompatível com a vida humana na Terra. Seria muito mais simples trabalhar só com partidos à esquerda, pois, em geral, são os que historicamente têm tratado o tema. Mas só com eles a gente não avança. Na próxima legislatura, eles serão só 120 deputados. É preciso superar a dicotomia direita e esquerda no clima. E isso pode ocorrer com as oportunidades que se abrem, desde a Noruega que vai botar dinheiro no Fundo Amazônia, à implementação do acordo União Europeia-Mercosul.

Essa será a forma de superar a polarização que estará refletida no Congresso?

Sim. É um caminho. Não podemos correr o risco de restringir a pauta climática à pauta ambiental. Ela é maior. É maior que o desmatamento. Ela é uma estratégia de desenvolvimento do País. Há oportunidades econômicas que podem significar mais recursos para o Brasil.

O discurso do cumprimento da lei não é importante para mobilizar a direita contra o desmatamento?

Pode ser, mas é preciso saber separar a ilegalidade da informalidade. É preciso combater a ilegalidade e ajudar o informal a se tornar formal e tomar cuidado para que essa agenda não vire só uma agenda de securitização.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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