A complexidade da infância inspira o livro ‘Os Abismos’

A família de Claudia vive uma crise, com o estremecimento do casamento dos pais, obrigando a garota a encarar as fragilidades dos relacionamentos. “Minha intenção era...

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Por Agência Estado

Claudia é uma menina de oito anos que vive com os pais em um apartamento abarrotado de plantas em Cali, na Colômbia. O ambiente exuberante, no entanto, contrasta com a apatia e indiferença da mãe, mulher insatisfeita com os caminhos da vida que a levaram até aquele momento – “na verdade, ela está envolvida no dilema da maternidade: se pudesse, ela não teria escolhido esse destino”, comenta a escritora Pilar Quintana, autora de Os Abismos (Intrínseca), que traz esses precipícios físicos e metafóricos.

A família de Claudia vive uma crise, com o estremecimento do casamento dos pais, obrigando a garota a encarar as fragilidades dos relacionamentos. “Minha intenção era a de desafiar a noção que temos de que a infância é o período mais feliz da vida. Não é verdade, pois se trata de um período marcado por complexidades. Eu queria sobretudo explorar meus próprios medos de criança”, conta Pilar ao Estadão.

Autora de cinco romances e um livro de contos, a colombiana já se aventura pelo tema em A Cachorra, também editado pela Intrínseca. “Mas, se em A Cachorra temos uma mulher que quer ter filhos e não consegue, em Os Abismos temos uma mulher que se vê como mãe e, de repente, percebe que, se pudesse escolher seu caminho, não teria sido o trilhado por ela.”

O drama é narrado sob a perspectiva de Claudia, que encara o final da infância com a descoberta das fendas irrecuperáveis que surgem em sua família. É triste observá-la com o olhar fixado na mãe que, descontente com a realidade, se apega na falsa felicidade estampada nas revistas femininas e suas mulheres de beleza impecável. Ainda que tenha o pensamento em formação, a menina se angustia com a admiração da mãe por estrelas marcadas por final trágico, como Grace Kelly, temendo que o mesmo aconteça com ela.

BARRO

“Senti, enquanto crescia, que havia uma teoria que contrastava com a realidade: as mulheres eram, segundo a teoria vigente, maternais, ternas, carinhosas, suaves, meigas, mas, na vida real, eu mal conhecia mulheres assim”, comenta Pilar. “E, quando refletimos sobre a maternidade, chegamos a um momento na infância em que descobrimos que nossos pais eram heróis de barro, que não eram tão perfeitos ou tão maravilhosos quanto pensávamos.”

No caso de Claudia, a situação se complica quando a mãe se envolve com o jovem e atlético marido da cunhada. A partir daí, a criança passa a testemunhar discussões explosivas entre os pais e longos episódios de depressão da mãe.

“Essa história é sobre esse momento em que a garota quebra a imagem que tem da mãe e começa a vê-la como uma figura monstruosa, assim como seu pai, e começa a perceber que talvez meu mundo não seja o ideal, talvez minha família não seja perfeita. Entrar no mundo dos adultos é descobrir o sofrimento.”

A história muda de ambiente quando os pais da menina alugam uma quinta para passar as férias de verão – e tentar manter um convívio equilibrado. Com isso, a atenção de Claudia se dirige para a história da mulher do dono da quinta, Rebeca, que desapareceu há muitos anos. O sumiço provoca uma ebulição na cabeça da menina, que projeta na mãe a tentativa de também desaparecer sem deixar rastros.

A frustração materna se explica ainda pelo momento em que se passa o romance – nos anos 1980, a mulher praticamente não podia definir o próprio destino, relegado aos cuidados dos filhos e do lar. Assim, a mãe de Claudia, além de impedida de cursar o ensino superior, é obrigada a se casar com um homem bem mais velho.

“Isso mudou nos últimos 40 anos, mas ainda há preconceitos patriarcais, machistas e misóginos, que persistem em nosso cotidiano”, afirma Pilar.

“Acredito que, acima de tudo, a revolução feminista beneficiou as mulheres das classes médias e médias altas. Não estou certa de que a revolução dos movimentos feministas atingiu mulheres de regiões mais pobres, que acabam tendo todo o fardo do trabalho doméstico, muitas vezes criando os filhos sozinhas e, se trabalham fora, ganham menos e têm menos oportunidades que os homens.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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