Por que, como e quando começar a ler para uma criança

“Com um ano e um mês, Theo recebeu o primeiro livro. Eu sempre ia buscar o pacote na portaria, junto com ele, e, já no elevador,...

Publicado em

Por Agência Estado

São muitos – e muito básicos e essenciais – os cuidados com um bebê que acabou de chegar. Com uma rotina minimamente estabelecida, e acreditando que os livros podem ser importantes para a vida daquela criança, como incluir a leitura no dia? Karin Silvestre, que leu para Theo na barriga, ofereceu livros de banho e alguns que haviam sido repassados por outras mães, sentiu logo que precisava de ajuda na seleção dos livros. Foi quando descobriu A Taba, clube de assinatura que também tem o pequeno Cassiano como assinante.

“Com um ano e um mês, Theo recebeu o primeiro livro. Eu sempre ia buscar o pacote na portaria, junto com ele, e, já no elevador, eu mostrava o nome dele no remetente. Era uma satisfação imensa ver, a cada mês, ele rasgando afoitamente o pacote em busca do livro. Assim que pegava nas mãos, ele já me entregava para eu ler na mesma hora. E é assim até hoje.” Além de receber o pacote mensal, Theo frequenta a biblioteca do bairro e livrarias.

PESQUISA. O primeiro contato com a literatura ainda no colo dos pais é decisivo para que essa criança se torne uma pessoa leitora. A Pesquisa Retratos da Leitura revelou, em sua edição mais recente, de 2020, um crescimento no número de crianças leitoras no Brasil, especialmente na faixa dos 5 aos 10 anos. A influência dos pais, sobretudo das mães, e dos professores foi responsável por isso, segundo o levantamento. Na época, Zoara Failla, coordenadora da pesquisa, disse ao Estadão que a família está percebendo isso. “Quando ela lê para o filho, quando lê na frente das crianças, quando a presenteia com livro, isso faz toda a diferença”, comentou.

E quando começar? Em nova entrevista, Zoara cita Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012), importante nome na questão da formação de leitores. “Ao defender que o conhecimento e a leitura acontecem em quatro dimensões (o afeto, a linguagem, a imaginação e a memória), Bartolomeu nos ajuda a entender como a contação de histórias para bebês pode despertar o prazer pela leitura. A leitura de livros de história pela família ou adulto, desde a primeira infância, possibilita compartilhar emoções. Ao ler ou contar histórias, a voz, a escuta, os gestos possibilitam associar o som das palavras à emoção que a história está transmitindo. Aprimora os sentidos e a atenção tão importantes na leitura.” E possibilitam associar ideias à linguagem e despertam a fantasia.

“As crianças não cansam de ouvir uma mesma história, o que nos leva a pensar que mais importante do que descobrir o que está sendo contado, na primeira infância, o prazeroso é o que desperta a memória; a fantasia; ouvir o som das palavras, identificar os personagens, associar imagens ao que está sendo contado, e compartilhar as emoções. Enfim, o que é sentido, como nos ensina Bartolomeu”, diz ainda.

Segundo a pesquisadora, o despertar da imaginação e o desenvolvimento da oralidade, da fala, da escuta e da curiosidade pelas imagens, palavras e o que está escrito tem início nesta fase e depende do contato com materiais, brinquedos e objetos com imagens e palavras e com livros.

COMO ESCOLHER. Os clubes de assinatura têm sido uma escolha de muitos pais que querem contar histórias para as filhos e não sabem por onde começar – mas que sabem que não querem qualquer livro e, sim, bons livros de literatura.

“Assim como o brincar é uma experiência insubstituível para o desenvolvimento cognitivo, linguístico e emocional das crianças, conviver desde cedo com cantigas, parlendas, poemas e pequenas narrativas promove também conquistas importantes por meio das brincadeiras de linguagem e do “faz de conta” das narrativas”, comenta Márcia Leite, idealizadora da Pulo do Gato, uma das mais respeitadas editoras de livros para a infância.

Para ela, os livros também podem ajudar as crianças a falar sobre si e a nomear quando entram em contato com histórias que as convidem a entender o que estão sentindo, o que não conhecem, o que precisam compreender melhor. Por isso, ela explica, é importante oferecer histórias e obras em que os leitores se reconheçam, se projetem e se sensibilizem.

LIVRO PARA BEBÊ. A literatura infantil e juvenil feita no Brasil é bastante desenvolvida, mas a edição de bons livros para bebês é algo relativamente novo.
Daniela Padilha, da Jujuba, que está entre as cinco finalistas do prêmio de editora do ano da Feira do Livro Infantil de Bolonha, na categoria América Central e do Sul, conta que desde 2017 tem estudado livros que incluem o bebê na leitura e percebeu que havia poucos títulos nacionais. “A maioria era importada e mais preocupada com a materialidade (plástico, cartonado, pano) em detrimento da história, da estética. Muitos nem sequer têm autoria. Então comecei a provocar autores brasileiros a pensar nesses livros junto comigo”, diz. “A primeira recepção foi uma negativa, afinal, o que seria um livro para bebês?”

Em 2019, a Jujuba criou a coleção Literatura de Colo, que tem hoje 11 títulos – alguns deles incluídos no catálogo da Taba e de outros clubes infantis que atendem leitores desde o comecinho da vida. Como a Jujuba e a Pulo do Gato, há outras casas editoriais com um olhar atento a este novo público e publicando livros verdadeiramente literários. E outras chegando agora, de olho no Plano Nacional do Livro Didático (PNLD), que incluiu, no edital divulgado em 2021, a categoria livros para bebês. “Estamos percebendo, desde o ano passado, um crescente nas publicações para bebês. Mas muita coisa pautada no que o edital pedia, com temas, quantidade de palavras por páginas, ilustrações com cores fortes e outros pontos que vão na contramão do que se entende por bebê hoje e suas relações com o mundo”, comenta Daniela.

Com anos de experiência em educação e contato com crianças maiores, Denise Guilherme não sabia bem o que fazer com seu bebezinho de um mês quando ouviu de uma enfermeira: “Você não trabalha com livros? Não gosta de ler? Leia para ele”. Fez isso. Leu o que gostava, foi pesquisar e disso nasceu a categoria 0-3 anos do seu clube A Taba. “Muita gente acredita que a leitura é boa para o bebê, mas isso é bom para a gente também. Quando começamos a ler para as crianças, estabelece-se um novo lugar na relação com elas.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Veja Mais

Whatsapp CGN 9.9969-4530 - Canal direto com nossa redação

Envie sua solicitação que uma equipe nossa irá atender você.


Participe do nosso grupo no Whatsapp

ou

Participe do nosso canal no Telegram

Sair da versão mobile
agora
Plantão CGN
X