Em 9 CDs, o pianista russo Igor Levit toca as 32 sonatas de Beethoven

A questão talvez seja outra. Já não é mais possível acompanhar o fluxo desses registros no mundo digital, tal o volume. Em todo caso, é interessante...

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Por Agência Estado

No início deste mês, Anthony Tommasini, crítico do New York Times, perguntou-se, num texto curto, por que precisamos de uma nova gravação de Rachmaninoff. E respondeu já no título: ainda precisamos sim. Entre os muitos motivos para a resposta positiva está a de que cada nova geração de intérpretes só se afirma internacionalmente quando enfrenta o chamado grande repertório, mesmo que a obra já tenha sido gravada não dezenas, mas centenas, milhares de vezes (talvez hoje milhões, porque não existe mais o obstáculo financeiro do custo para se produzir o CD físico; basta jogar o MP3 na rede e nas plataformas de streaming para atingir qualquer um dos bilhões de habitantes do planeta).

A questão talvez seja outra. Já não é mais possível acompanhar o fluxo desses registros no mundo digital, tal o volume. Em todo caso, é interessante pinçar os mais inquietos e inovadores músicos jovens e suas propostas artísticas hoje menos engessadas.

É sintomático que um compositor contemporâneo arrojado, experimental e militante da causa da música política, como o norte-americano Fredriz Rzewski, hoje com 81 anos, apareça com frequência em álbuns de jovens músicos. Cabecinhas preocupadas com a turbulência deste mundo trumpiano em que vivemos não escolhem Rzewski por acaso para seus projetos artísticos.

Foi assim, por exemplo, com o pianista sino-americano Conrad Tao nascido em Illinois 25 anos atrás: sua gravação mais recente (Warner), American Rage, fúria americana, combina duas peças de Rzewski (uma, atualíssima, intitula-se De Que Lado Você Está?) com a sonata nº 1 de Aaron Copland, composta em 1941, período em que abraçou a causa comunista nos EUA, e Compassion de Julia Wolfe chorando os 3.000 mortos do ataque às torres gêmeas em setembro de 2001.

O pianista russo Igor Levit, de 32 anos, não tem um itinerário tão explicitamente político, mas adora riscos, o que o diferencia no mar de pianistas robotizados que nos rodeiam. Levit nasceu em Gorky, mas cresceu e estudou música na Alemanha. Seu itinerário é surpreendente, apesar de ancorado em Beethoven. Um de seus primeiros álbuns, de 2007, enfoca os cinco concertos de Beethoven com a Orquestra de Câmara de Colônia (mas o principiante sola só o primeiro; os demais ficam por conta de outros pianistas). O salto para a celebridade aconteceu oito anos depois, em 2015, quando estreou na Sony com um ousadíssimo álbum triplo intitulado Bach-Beethoven-Rzewski. Nele Levit colocou as Variações Sobre ‘Um Povo Unido Jamais Será Vencido’, de Rzewski, portentosa peça de uma hora de duração, no mesmo nível das muito mais ilustres Variações Goldberg e das Diabelli. Ganhou todos os prêmios internacionais.

Em 2018, no duplo Life, Levit mistura a célebre transcrição da chacona da partita nº 2 de Bach para violino solo feita por Busoni com a transcrição de Liszt para a marcha solene do Parsifal de Wagner e uma rara transcrição de Busoni para a Fantasia e fuga sobre o coral Ad nos ad salutarem, de Meyerbeer, a primeira grande obra original para órgão de Liszt, composta em 1850, quando ele começou a trabalhar em Weimar e tocou no órgão inaugurado pelo próprio Bach em 1708 e onde o “Kantor” trabalhou até 1715. Obra de grandes proporções (quase 35 minutos), em três movimentos, incluindo um belíssimo Adagio central. A cereja são os 6 minutos finais dedicados a The Peace Piece, do pianista de jazz Bill Evans. Vida musical, para Levit, é isso: um círculo inclusivo e virtuoso em que Bach, Wagner, Liszt e Busoni convivem com Evans. Este último, poucos sabem, costumava tocar em casa os prelúdios e fugas do Cravo Bem Temperado… de Bach.

O pianista russo, músico que desde o início da carreira exerce uma liberdade absoluta em relação a seus projetos musicais, abre a nova década com outro mamute: as 32 sonatas de Beethoven, nove CDs na versão física, 10 horas e 5 minutos de música. Lançado em setembro passado, já ganhou todos os prêmios internacionais. E promete dar o tom das comemorações dos 250 anos de Beethoven como um de seus mais importantes lançamentos. Para Levit, essa gravação é a conclusão de um percurso de 15 anos. “Meu encontro com as Diabelli aos 17 anos mudou minha vida, e continua mudando; a convivência diária com as sonatas de Beethoven, com Beethoven como pessoa, comigo mesmo, com o mundo em que vivo – tudo isso me encaminhou para essa gravação.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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