Bichos e pandemia: os humanos devem sair ou ficar em casa?

Partindo dessa ideia, o jornalista Jason Gay, do diário norte-americano The Wall Street Journal, fez um exercício divertido: colocou a pandemia na perspectiva do Cão e...

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Por Agência Estado

Nunca passamos tanto tempo em casa quanto em 2020. Isso afetou nossas vidas em diversos aspectos – e também os nossos animais de estimação. Não foram raros os relatos de gatos enfadados com a presença constante dos humanos em “suas” casas. E, no ápice da quarentena, o tradicional passeio dos cachorros também foi deixado de lado por muitos donos.

Partindo dessa ideia, o jornalista Jason Gay, do diário norte-americano The Wall Street Journal, fez um exercício divertido: colocou a pandemia na perspectiva do Cão e do Gato. Inspirado por ele, o jornalista Gilberto Amendola, do Estadão, fez um exercício similar, partindo da realidade atual da pandemia no País. O Cão e o Gato, aliás, têm perspectivas antagônicas: o Cão anda preocupado com as notícias que lê enquanto faz xixi no jornal. Já o Gato não vê a hora do home office acabar e ele ter, novamente, a privacidade que deseja.

‘Estou me coçando de vontade de dizer: voltem para casa’

Há semanas venho fazendo xixi sobre notícias preocupantes em relação à pandemia da covid-19.

Eis que a chamada segunda onda nos apanhou no meio de uma precipitada flexibilização. São humanos correndo atrás de bolinhas imaginárias em bares, restaurantes e aglomerações sem sentido. O resultado disso é uma taxa de transmissão do novo coronavírus semelhante àquela enfrentada em maio, no auge da crise. O vírus morde. E continua mordendo.

Hoje, os miados do negacionismo surgem disfarçados de preocupação com a economia. Não se deixem enganar: o maior ativo econômico de uma nação é a saúde da sua população. Saúde é um osso suculento e cheio de carne. Saúde é petisco.

Se tem uma coisa que eu entendo é de vacina. Tenho raiva quando ouço promessas mirabolantes de vacinação para ontem. Lamento rosnar em seus ouvidos ludibriados, mas a vacina não é pra já. Existem desafios logísticos que só quem já foi esquecido em dia de mudança pode entender. Por isso, os cientistas estão latindo comigo: voltem para suas casas.

Voltem para a segurança, o conforto e o carinho dos seus lares. Nossa casa, quero dizer, sua casa, é o lugar ideal para se estar.

Além do mais, se essa pandemia tem algo de bom, e perdoem meu rabinho abanando de otimismo, é o fato de antecipar o futuro. E o futuro é o home office, sweet home office, uau, uau!

As vantagens econômicas e pessoais de trabalhar em casa não cabem neste artigo. Sem o estresse do trânsito, sem o barulho das motos ou do caminhão do lixo, a vida é muito melhor.

Trabalhar do próprio sofá, dividindo-se entre a tela do computador e aquele carinho relaxante na barriga de um pet, mostrou-se eficaz em todos os sentidos (principalmente em termos de produtividade). Permanecer em casa é um ato de coragem e inteligência.

A própria economia agradece. Você, provavelmente, já comprou cadeiras melhores, poltronas mais gostosas e sofás que ando me segurando para não destruir. Além disso, é possível que tenha feito uma enorme economia ao não viajar em 2020. Sempre considerei essa coisa de “viajar” supervalorizada em nossa sociedade.

E mais importante, quando toca aquele barulho irritante do interfone, quase sempre é comida. Isso é genial. Vocês humanos tomam muitas decisões questionáveis, mas, preciso dar a pata à palmatória, o delivery é uma das maiores criações de todos os tempos.

Não recuso um naco de carne, uma borda de pizza.

Fiquem em casa. Mantenham-se a salvo e me façam feliz. Não caiam na lábia de velhos gatunos negacionistas da ciência.

PS: Vez ou outra, uma voltinha pelo quarteirão não faz mal.

‘A vida acontece quando o humano está fora da casa’

Venho aqui sem muitos rodeios e sinuosidades desnecessárias defender a volta do velho normal, defender milhares e milhares de empregos e o reaquecimento da nossa já combalida economia. Como disse James Carville, assessor da campanha de Bill Clinton, em 1992: “É a economia, cachorro estúpido!”. E falo isso com a maior segurança. Pois nós, os gatos, já nascemos pobres.

Antes de arranhar o assunto, preciso avisar que não sou um negacionista da covid-19. Sou racional e cuidadoso nas minhas observações. Diferentemente daqueles que andam latindo aos quatro ventos que a ciência é isso, a ciência é aquilo, digo com segurança que a ciência já nos deu instrumentos para uma retomada consciente. E qual seriam eles? O básico: máscara, álcool em gel, Whiskas e distanciamento. Ao seguir protocolos já incorporados ao nosso cotidiano, humanos podem e devem sair da minha casa. Digo, das suas casas.

Fico agressivo quando vejo alguém sem máscara ou usando ela no queixo. Então, não me coloquem no colo de quem nega o vírus. Mas também não quero o afago fácil de quem prega um lockdown irresponsável.

Assim como os da minha laia, a humanidade sempre haverá de encontrar uma fresta na janela para se esgueirar e escapar dos seus próprios apuros. É do alto do telhados que encontraremos as melhores soluções.

No mais, eu jamais defenderia algo que colocasse a vida de quem mantém a minha caixa de areia limpa em risco. Minha maior preocupação é com a nossa saúde mental. Como é difícil se sentir preso quando a vida lá fora continua chamando, não é? O cio da vida é indomável, meus amigos, Vocês, dentro de casa, enlouquecem e nos enlouquecem. Levantem do meu sofá. Façam atividades ao ar livre. Me esqueçam um pouquinho. Eu sempre vou aparecer, quando EU quiser.

O home office precisa ser uma solução temporária. Esses computadores não podem habitar, para sempre, a superfície lisa dessas mesas que costumamos usar como passarelas.

Mas o que mais me arrepia os pelos do bigode é a presença das crianças em casa – o tempo todo! O prejuízo para a formação desses pequenos pode ser irrecuperável. A retomada das aulas é fundamental – e me parece inexplicável que ela ainda não tenha acontecido de forma completa. Larguem meu rabo, parem de me apertar. Essas demonstrações exageradas de carinho não ajudam na formação dos seus filhos. O que ajuda é aula de matemática, de história e a convivência com outros humanos em sala de aula.

Eu não sou cachorro, não.

Vocês precisam respirar lá fora. Nós, os gatos, precisamos respirar aqui dentro.
A covid não é uma gripezinha. Mas o engenho humano vai nos presentear não com uma, mas com muitas vacinas. Até o dia “V”, claro, tomem cuidado, mas não deixem nossa economia e a educação dos seus filhos desmoronar.

Eu tenho sete vidas; vocês, só uma. Portanto, cuidado! Mas não deixem de vivê-la.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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