
Racismo reverso? A carne mais barata do mercado é a carne negra? Até quando?
20 de novembro: Dia da Consciência Negra....
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Por Deyvid Alan
Hoje 20 de Novembro é comemorado o Dia da Consciência Negra. Esta data faz referência ao dia da morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo de Palmares, que deu a vida lutando para preservar o modo de vida dos escravos que conseguiam fugir dos lugares onde eram mantidos contra a sua vontade.
Durante grande parte da história do Brasil, os negros foram escravizados para prestarem serviços aos homens brancos, tendo que viver em condições desumanas, amontoados dentro de senzalas. Mas não estou aqui querendo dar uma aula de história, aula esta que deveríamos ter tido de forma mais aprofundada e realista nos colégios públicos e privados, nas quais fosse explicado de fato o que foi a escravidão, mas não da forma romantizada e sutil como ela é exposta.
O Brasil não foi descoberto, ele foi invadido. Reis e rainhas da África foram trazidas à força para trabalharem de graça em terras roubadas. Durante a viagem milhares de pessoas morreram por condições desumanas as quais eram submetidas, muitos morreram de tanto trabalhar, muitos morreram de fome, de dor, de cansaço e tantos outros tentando fugir de toda aquela desgraça. Foi violento, foi sangrento.
Talvez se essas aulas tivessem acontecido da forma como deveria, hoje cenas absurdas de racismo não fossem vistas com naturalidade e tratadas como “mimimi” por brancos privilegiados que em pleno 2020 acreditam em racismo reverso.
Aliás, para não restar dúvida, acho válido reforçar: Não, não existe racismo reverso. O racismo demarca o que parte da população sofreu e ainda sofre com a exploração da sociedade, com exploração do trabalho, segregação financeira, de moradia e perseguição cultural sob a justificativa da raça. É estrutural.
O Brasil foi a última nação independente nas Américas a abolir a escravização de negros, em 1888, mas as consequências desse período são sentidas até hoje. Dados do IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que 54% da população brasileira é negra. Sim, a maioria da população é negra, em contrapartida os locais que os negros ganham maior espaço não são nas universidades e nem em cargos de chefia. 67% da população carcerária são afrodescentes e 77% dos mortos no nosso país são jovens negros, entre 15 a 29 anos.
Os negros estão entre os 75% mais pobres do país, representam o maior número de mortes por agentes do estado (polícia), são os que mais têm crédito negado sem explicação, são as principais vítimas da falta de saneamento, estão entre os mais desempregados atualmente e sofrem como as principais vítimas de intolerância religiosa.
Episódios de racismo são recorrentes no Brasil, alguns vêm à tona, mas a grande maioria não. Um caso que ficou muito conhecido foi o de um menino de 8 anos que foi expulso da calçada de uma loja de grife, na Rua Oscar Freire, em São Paulo, por uma funcionária do próprio estabelecimento.
Outro episódio aconteceu no início de 2013, quando um casal do Rio de Janeiro chamou a atenção do país após o filho, de 7 anos na época, negro e adotado, ter sido vítima de preconceito racial em uma concessionária de veículos.
A modelo brasileira Silvia Novais, vencedora do concurso Miss Itália no Mundo, sofreu ataques racistas na internet após ganhar o prêmio. Foram publicados comentários sobre ela como “Essa negra nojenta não pode ser italiana”, “Se fosse na Roma antiga, essa ‘italianinha’ seria uma criada de Nero!”.
No Espírito Santo, Edson Lopes, um cabo da Polícia Militar, foi vítima de um episódio de racismo em um supermercado de Vitória. O policial afirmou na ocasião que foi obrigado a se despir para provar aos seguranças do estabelecimento que não estava roubando dois vinhos comprados minutos antes do ocorrido. Por ser negro e estar usando bermuda e chinelo, Lopes declarou na ocasião que os seguranças o confundiram com ladrão.
Em 2017, a filha dos atores Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, Titi, foi ofendida nas redes sociais por uma socialite. Na ocasião, a agressora disse nas redes sociais que não entendia por qual motivo as pessoas “ficavam no Instagram do Bruno Gagliasso, elogiando aquela macaca” e ainda falou que “a menina é preta, tem cabelo horrível, de bico de palha, e tem um nariz de preto, horrível”.
E um episódio bastante recente aconteceu em Maringá, quando dois Angolanos foram agredidos e arrastados para fora de uma revendedora de bebidas.
Passaríamos horas listando as centenas de casos de racismo divulgados pela grande mídia, mas ficaríamos bem mais chocados se soubéssemos dos milhares de episódios lamentáveis que não chegam ao público. “Opressão, humilhação, preconceito, a gente sabe como termina quando começa desse jeito”, já dizia Bia Ferreira.
A grande questão é que a nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história e a simples capacidade de se colocar no lugar do outro tem se tornado cada vez mais rara. Não podemos esquecer que somos múltiplos, somos muitos e plurais, um dos países mais diversos e belos do mundo, mas infelizmente falta empatia, solidariedade, altruísmo e isso acirra sentimentos adversos, que alimentam práticas desumanas como o racismo.
Por mais que nos coloquemos no lugar do outro, nenhuma pessoa, que não seja negra, conseguirá ter ideia da dor de ser discriminado, de ser tratado de forma diferente, não ter oportunidades, ser humilhado, inferiorizado, excluído por causa da cor da pele como se não tivesse valor nenhum, pois como bem lembra Elza Soares “A carne mais barata do mercado é a carne negra”.
Todo o exposto nesse texto, parte da constituição subjetiva de um sujeito não pertencente a este lugar de fala, o que não o impede de lutar contra o racismo e querer que todos tenham o direito à representatividade.
Com dados do IBGE e Alma Preta
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