Pontes que passam de 50 anos: veja alerta feito por especialista em estruturas

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A preocupação ganha ainda mais força quando se leva em conta a idade de muitas pontes brasileiras.

Por Luiz Haab

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Você já passou por uma ponte e se perguntou se aquela estrutura é realmente segura? Por fora, aparentemente normal. Mas rachaduras, desgaste de materiais, problemas nas fundações e outras alterações podem não ser percebidos por quem simplesmente atravessa a estrutura.

A preocupação ganha ainda mais força quando se leva em conta a idade de muitas pontes brasileiras. Segundo o engenheiro e perito criminal Jorge Wissmann – mestre em estruturas e doutor em engenharia -, muitos projetos estruturais no Brasil foram dimensionados para uma vida inicial de aproximadamente 50 anos. A partir daí, a manutenção se torna ainda mais importante.

“Tem pontes que já passaram muito dos 50 anos, mas elas exigem manutenção”, explicou Wissmann durante entrevista ao Estúdio CGN.

O especialista destaca que as pontes construídas décadas atrás não podem ser consideradas automaticamente inseguras. A engenharia evoluiu, os materiais atuais são mais resistentes e os projetos ficaram mais esbeltos, mas as estruturas antigas também eram dimensionadas com margens de segurança e, em muitos casos, utilizavam grandes volumes de concreto e aço.

O problema, segundo ele, está principalmente na conservação. Uma estrutura pode continuar funcionando por muitas décadas quando recebe as inspeções e intervenções necessárias. Por outro lado, deixar um problema para depois pode transformar uma manutenção relativamente simples em uma obra de grande proporção.

E o alerta é financeiro. Wissmann explica que adiar uma intervenção pode fazer o custo aumentar de forma significativa. Segundo ele, uma manutenção realizada no momento adequado pode custar “X”. Se o problema for deixado para cinco anos depois, o gasto pode chegar a três vezes esse valor. Após dez anos, pode alcançar até 20 vezes o custo inicial.

Em suma: quanto mais tempo uma deterioração permanece sem tratamento, maior tende a ser a intervenção necessária. Caso contrário, tragédias podem ocorrer, a exemplo do colapso da poste  ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, entre Maranhão e Tocantins, em dezembro de 2024, que matou 14 pessoas e deixou outras desaparecidas.

No Paraná, algumas estruturas conhecidas passaram ou passam por obras de manutenção. É o caso da Ponte Ayrton Senna, em Guaíra, que recebeu intervenções nos pilares. A existência de um reforço estrutural, no entanto, não significa necessariamente que a ponte esteja prestes a apresentar um colapso.

De acordo com Wissmann, quando uma inspeção identifica desgaste ou deterioração, existem diferentes técnicas de reforço que podem ser utilizadas para recuperar a capacidade da estrutura.

Outro ponto que costuma provocar preocupação entre motoristas é o balanço de uma ponte. No caso da estrutura sobre o Rio Piquiri, entre Terra Roxa e Palotina, a interdição ocorreu em meio a problemas estruturais que exigiram intervenção. Para o especialista, porém, o simples fato de uma ponte apresentar movimentação não significa, por si só, que exista risco iminente de queda.

“Você não constrói um prédio, uma ponte, para ser extremamente rígida”, explicou.

Segundo ele, determinadas estruturas são projetadas para apresentar um certo grau de flexibilidade. O problema está quando a movimentação ultrapassa os limites previstos no projeto. Para verificar esse comportamento, a engenharia pode utilizar análises que avaliam as frequências de vibração e os limites de movimentação da estrutura.

A Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu, também entrou recentemente no debate sobre segurança depois que focos de incêndio e fumaça foram registrados na estrutura, além de relatos sobre possíveis rachaduras. Wissmann afirmou que, pelo que acompanhou do caso, a suspeita estava relacionada a um curto-circuito na fibra óptica, sem indicação de que o problema tivesse atingido a estrutura da ponte.

Questionado diretamente se considera a Ponte da Amizade segura, o engenheiro foi enfático:

“Eu não tenho problema nenhum em passar ali, inclusive, passo ali frequentemente.”

A avaliação técnica de uma ponte, entretanto, não depende apenas daquilo que pode ser visto a olho nu. Existem diferentes tipos de inspeção. A avaliação inicial ocorre quando a estrutura entra em operação. Depois, são realizadas inspeções rotineiras, normalmente com análise visual, e inspeções mais detalhadas, nas quais podem ser utilizados equipamentos para avaliar o concreto e outros materiais.

Em situações excepcionais, como colisões, acidentes ou outros acontecimentos que possam comprometer a estrutura, também pode ser realizada uma inspeção extraordinária.

É justamente por isso que, segundo Wissmann, o usuário também pode contribuir ao perceber alguma alteração, mas não consegue avaliar sozinho a segurança de uma ponte.

A responsabilidade envolve diferentes agentes, dependendo da situação. Pode haver atribuições relacionadas aos órgãos responsáveis pela fiscalização e manutenção, às empresas executoras e, em determinados casos, aos responsáveis pelo projeto. O usuário pode comunicar problemas, mas não possui, normalmente, conhecimento técnico suficiente para avaliar toda a estrutura.

No Brasil, as pontes também precisam seguir normas técnicas específicas de projeto, execução e inspeção. Para Wissmann, quando as normas são respeitadas, a execução é adequada e as manutenções são realizadas no momento correto, as estruturas podem continuar desempenhando sua função com segurança por muitos anos.

Mesmo diante das preocupações com pontes antigas, o especialista faz uma avaliação positiva do conjunto das estruturas brasileiras. Segundo ele, considerando a grande quantidade de pontes existentes e utilizadas diariamente, a maioria não apresenta situações críticas.

A conclusão, portanto, não é que uma ponte antiga seja necessariamente perigosa. O alerta é outro: idade, sozinha, não derruba uma ponte; falta de manutenção pode transformar o envelhecimento natural da estrutura em um problema muito maior.

E talvez essa seja a principal questão para quem atravessa uma ponte todos os dias sem sequer pensar no que existe por baixo do asfalto: não basta perguntar quantos anos aquela estrutura tem. É preciso saber quando foi a última inspeção, quais problemas foram encontrados e o que foi feito para garantir que ela continue segura.

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