Brasil estaciona em notas de educação no Pisa, mas reduz distância de países ricos, em queda

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Por outro lado, em uma análise de 20 anos, o balanço é de que Brasil incluiu mais crianças na escola, avançou nos resultados e reduziu a distância para as nações ricas, que sofrem com uma inédita crise de aprendizagem.

Por Agência Estado

Em uma década marcada pela pandemia de covid-19 e por crise econômica, a educação brasileira ficou estagnada nos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), principal avaliação internacional de aprendizagem, conduzida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Por outro lado, em uma análise de 20 anos, o balanço é de que Brasil incluiu mais crianças na escola, avançou nos resultados e reduziu a distância para as nações ricas, que sofrem com uma inédita crise de aprendizagem.

O Brasil foi citado pelo diretor de Educação da OCDE, Andreas Schleicher, como exemplo positivo da avaliação ao longo de duas décadas. O Ministério da Educação (MEC) diz que o Brasil mostrou resiliência após a pandemia (leia mais abaixo).

Os dados do Pisa foram divulgados nesta terça-feira, 8, e trazem o desempenho de 91 países ou regiões em Ciências, Matemática e Leitura. Nesta edição, o teste também avaliou a Resolução de Problemas por meio de Ferramentas Computacionais. O Pisa é aplicado pela OCDE para alunos de 15 anos e, no Brasil, avaliou 30.140 estudantes de 1.053 escolas.

Para a OCDE, o recuo global de desempenho expõe a perda de concentração e atenção dos jovens – além da diminuição do hábito da leitura – em um mundo cada vez mais transformado pelo excesso de telas e pela inteligência artificial. “Percorrer rapidamente feeds das redes sociais e processar informações em alta velocidade”, aponta a organização, pode ter contribuído “para a piora da capacidade e da motivação dos estudantes para lidar com textos e dados complexos”.

O País foi classificado com “baixo desempenho” em três das quatro áreas avaliadas. Só em Leitura ficou “abaixo da média”, considerado um patamar melhor, mas ainda inferior ao das nações da OCDE.

O Pisa destaca, porém, que o Brasil foi o único a ampliar significativamente a participação no exame e manter o desempenho estável desde 2015 (apenas oscilações negativas ou positivas na nota). Em outros países, houve queda em algumas áreas no mesmo período. Só três que ampliaram a cobertura do Pisa registram alta em alguma das três áreas: Camboja, República Dominicana e El Salvador.

A aprendizagem dos adolescentes de 15 anos no mundo despencou a índices jamais vistos, em especial nos países ricos. No relatório do Pisa 2025, a OCDE afirma que as quedas de desempenho refletem perda de concentração e atenção dos estudantes – além da diminuição do hábito da leitura – em um mundo cada vez mais digital e transformado pela inteligência artificial.

Os resultados indicam que 20% dos estudantes de 15 anos das nações mais ricas têm baixo desempenho em Leitura, Matemática e Ciências – eram 16% em 2022. A maior queda no exame foi em Leitura, que ocorreu em três quartos dos sistemas educacionais do mundo entre 2018 e 2025.

O resultado preocupa porque a disciplina é necessária para bom desempenho em todas as áreas. Nações como Dinamarca, Noruega, Espanha e Suécia recuaram mais de 20 pontos, o que significa um ano de aprendizagem. Todos os países do topo registraram queda em Leitura, exceto Reino Unido, que teve a mesma nota.

O Pisa não tem escala máxima ou mínima de pontos. As nações são divididas em uma média de cerca de 500 pontos, com desvio-padrão de 100 no exame.

O melhor desempenho do Brasil em comparação com os outros países analisados no Pisa foi justamente em Leitura. O Brasil é o 52º no ranking, atrás de vizinhos como Chile (37º) e Uruguai (42º).

Nesta área, os jovens brasileiros registram 408 pontos na edição de 2025, dois pontos a menos do que em 2022, quando alcançaram 410. A nota praticamente empata com a média obtida há 10 anos, quando os alunos registraram 407 pontos. Apesar da variação, é considerado estatisticamente estável pela OCDE.

Cerca de 49% dos alunos brasileiros alcançaram, no mínimo, o nível 2 de proficiência em Leitura. Na OCDE, o porcentual neste patamar é de 69%. Esses alunos conseguem compreender e interagir com textos simples do cotidiano, localizar dados específicos e conectar informações diferentes para estabelecer significado coerente. Os estudantes também são capazes de avaliar a credibilidade de um texto e começar a discernir fatos de opiniões.

Em Ciências, os brasileiros aparecem em 67º lugar foi a área que o País mais avançou na última década (8 pontos). Mas também está atrás dos vizinhos na disciplina: Uruguai (42º), Chile (43º) e Colômbia (63º).

No Pisa 2025, os brasileiros registraram 409 pontos, ante 401 em 2015. A nota também subiu em comparação com a edição de 2022, quando foi de 403 pontos.

Quase metade dos brasileiros (48%) alcançou ao menos o nível 2 de proficiência em Ciências. Significa que podem, no mínimo, reconhecer a explicação correta para fenômenos científicos familiares e, a partir disso, verificar se uma conclusão é válida a partir de informações fornecidas.

Os estudantes ainda não são capazes, no entanto, de utilizar conhecimentos de forma mais elaborada, avaliar evidências, ou embasar decisões.

Na Resolução de Problemas por meio de Ferramentas Computacionais, o Brasil é o 69º, com 406 pontos, atrás de Chile (43º), Peru (58º), Colômbia (60º) e Equador (66º). É a primeira vez que o Pisa avalia essa competência.

Os brasileiros, em média, interagem de forma superficial com ferramentas digitais, mostra a prova. Conseguem fazer pequenas modificações em programas simples apenas para observar o que acontece. Em tarefas práticas do teste, são capazes, por exemplo, de fazer com que uma garra robótica mova um objeto.

Matemática é a pior área

A pior área do Brasil, seguindo uma tendência global, é Matemática (71º). Em 2025, foram 377 pontos no Pisa, mesma pontuação obtida há 10 anos e dois pontos abaixo da nota de 2022. O Brasil está a uma distância de 86 pontos da média da OCDE (463).

Dados da avaliação mostram ainda que apenas cerca de três em cada dez alunos (28%) atingem o nível 2 de proficiência no Pisa. Na OCDE, a média é de quase sete em cada dez (65%), o que mostra o Brasil bem atrás.

Alcançar o nível 2 de proficiência significa interpretar uma situação simples matematicamente, sem instruções diretas. Por exemplo, ser capaz de comparar a distância entre duas rotas ou converter preços para moeda diferente.

Alunos abaixo deste nível enfrentam dificuldades em tarefas básicas do dia a dia, como identificar a relação entre unidades e preços ao fazer compras, ou interpretar uma conta de luz.

Quase nenhum estudante brasileiro obteve alto desempenho nos testes do Pisa de Matemática, atingindo as faixas 5 ou 6.

A disparidade entre os países Matemática já vem sendo retratada ao longo das edições do Pisa. Segundo a OCDE, estudantes de Áustria, Escócia (Reino Unido) e Singapura apresentaram, ao longo de um ano, progresso aproximadamente duas vezes maior do que o de um jovem brasileiro.

“Um ano de escolaridade não é uma unidade fixa. Ele não proporciona o mesmo nível de aprendizagem em todos os lugares”, diz o relatório.

Em análise divulgada à imprensa, o MEC celebrou os resultados e destacou a resiliência do sistema, sobretudo após a crise da covid.

“O Brasil mostrou maior estabilidade e recuperação após a pandemia do que a média da OCDE. Entre 2018 e 2025, recuperou e superou o desempenho pré-pandemia em Ciências e registrou perdas menores que a média da OCDE em Leitura e Matemática”, diz.

Mais perto dos países mais ricos (que pioraram)

Ao longo de 20 anos, o retrato do Brasil é mais positivo. O País é mencionado no relatório como um dos exemplos de promoção de equidade e avanço no desempenho.

Durante cerca de duas décadas o Brasil reduziu significativamente a distância relação aos países mais ricos, que também retrocederam nos resultados ao longo do período.

“A Alemanha transformou o alerta provocado pelo choque do Pisa de 2001 em um amplo programa de reformas. O Brasil mostrou que maior equidade e maior qualidade podem avançar juntas, ampliando dramaticamente as oportunidades educacionais ao mesmo tempo em que melhorava seus resultados no Pisa”, afirma o diretor de Educação e Competências da OCDE, Andreas Schleicher, no prefácio do relatório.

O melhor cenário é em Leitura. Em 2006, os estudantes tiraram 102 pontos a menos do que seus colegas da OCDE. Em 2025, a distância cai para 58 pontos.

Em Ciências, os brasileiros registravam 113 pontos a menos que a OCDE em 2006. Já em 2025, a diferença recua para 77 pontos.

Em Matemática, disciplina mais crítica, os brasileiros tinham 131 pontos a menos que os jovens da OCDE em 2006. E, agora, aparecem com 92 pontos a menos.

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