Mulheres indígenas reivindicam protagonismo como guardiãs da Amazônia
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Por CGN
“Mulheres em resistência, em defesa dos nossos corpos e dos nossos territórios. Que não sejam tocados, não sejam violados, não sejam mortos! A força da terra está dentro de nós.”
Com o manifesto, treze mulheres indígenas de diferentes povos da Amazônia encerraram a última edição do TEDxAmazônia, realizado pela primeira vez fora do Brasil, nas cidades de Banos e Puyos, no Equador. À frente do grupo, a anciã sábia do povo Shuar Catalina Chumpi, pediu às águas das cachoeiras que dêem poder às suas “netas” para defender seus territórios.
O manifesto das mulheres e o pedido de Catalina reverberam a mensagem de abertura do encontro, realizado entre os dias 27 e 30 de agosto. O líder indígena do povo Shuar, Domingos Peas, pediu um minuto de silêncio por todas as defesoras e defensores da natureza assassinados em represália por seu trabalho.
De acordo com o último relatório divulgado pela organização Global Witness, os povos da Amazonia se encontram em uma intersecção letal: a América Latina é o continente onde mais se matam defensores ambientais, e os líderes indígenas são os mais vitimados.
O oposto desse cenário trágico é um apontamento para o futuro: as populações que vivem na Amazônia são essenciais para a preservação do território, e devem ser protegidas e ter o seu protagonismo garantido, defenderam diversas palestrantes do TEDXAmazonia.
De acordo com a líder do povo Kichwa, Patricia Gualinga, isso passa pela incorporação legal da cosmovisão indígena sobre a natureza como um sujeito em si mesmo, e não uma fonte passiva de recursos para os humanos. A “selva viva”, em suas palavras, “com memória, com alma, com direitos, um sujeito próprio”.
“Para nós, a natureza sempre teve direitos. Por isso, os lugares mais bem cuidados estão nos territórios indígenas, porque nós entendemos que não somos os únicos habitantes do planeta”, declarou a integrante do Fórum Permanente das Nações Unidas para Questões Indígenas durante sua apresentação no evento.
“Quando eu era criança aprendi que a floresta respirava e agora que sou adulta sigo acreditando que a floresta respira. É uma proposta ao mundo de reconhecer o território como um ser vivo. Aprender uma língua que nossos povos falam há milhares de anos”, complementou a juiza do Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza.
Decisões pontuais semelhantes ocorreram em outros países, como o reconhecimento dos direitos do Rio Atrato, na Colômbia, e do Rio Maranhão, no Peru. De acordo com Patrícia, é preciso avançar para o reconhecimento de territórios inteiros e não somente de pontos específicos, como rios e florestas.
Mas o maior desafio é a aplicação desses direitos, após a obtenção da garantia legal. “Uma constituição não vai regenerar por si mesma uma floresta, uma sentença não vai sanear um rio. Nós precisamos de políticas públicas, de transformações profundas na economia global, de instituições firmes”, defendeu Patricia Gualinga.
Diana Chavez diz que mudanças concretas dependem da participação efetiva dos povos indígenas na governança de fundos. Foto: Diego Aguilar/Divulgação
A diretora de Comunas, Povos e Nacionalidades do Fundo do Biocorredor Amazônico, Diana Chavez, reivindicou também recursos e poder de decisão sobre eles. Para ela, mudanças concretas dependem da participação efetiva dos povos indígenas na governança de fundos e outras fontes financeiras de ações para a conservação da floresta.
“No Equador há um fundo abastecido por recursos da mineração e do petróleo. Ele existe há seis anos sem que os povos indígenas consigam acesso a ele de maneira direta. Por quê? Burocracia, requisitos excessivos, mudanças na adiministração e nas normativas. Porque esse fundo foi desenhado para os povos indígenas e não com eles. E a diferença entre o “para” e o “com” não é apenas semântica”, exemplificou.
Diana enfatizou que menos de 1% do financiamento global para ações de controle do clima chegam diretamente aos povos indígenas. Por isso defendeu também que esses fundos construam mecanismos de acesso direto e facilitado aos recursos, em conjunto com a comunidade.
A líder do povo Kichwa de Pastaza também argumentou que, mesmo sem recursos, os povos indígenas vêm protegendo a Amazônia, com seus corpos e suas vidas. “Graças à filosofia de vida dos povos indígenas a Amazonia segue quase intacta. As comunidades amazônicas não são beneficiárias passivas da conservação e sim suas arquitetas”.
Ela lembra que a conservação da floresta não é inimiga do desenvolvimento sustentável das comunidades, porque a convivência igualitária com a natureza está na raiz do modo de viver indígena. Um exemplo disso foi oferecido pela administradora Esthela Noteno, de origem Kichwa.
Esthela contou que cresceu em uma comunidade abundante no distrito de Sucumbíos, e viu essa riqueza se tornar escassa por causa da contaminação ambiental, causada principalmente pela atividade petroleira. Em situação de pobreza, e sem acesso a serviços básicos, muitos moradores aceitaram uma proposta de empresas agrícolas e arrendaram suas terras para a produção monocultora de taro, um tubérculo estrangeiro da família do inhame.
“Não continuaram arrendando porque odeiam seu território, e sim porque não tinham outra oportunidade de gerar renda para alimentar seus filhos”, ressalva a administradora.
Essa “armadilha”, como define Esthela, golpeou mais uma vez a biodiversidade do território. Mas em meio a pandemia de covid-19, ela sonhou com uma solução. “Isolados em casa, meu pai cozinhava a guayusa enquanto nos explicava seu valor, suas propriedades antioxidantes, reequilibrantes.”
Esthela destaca o cultivo da guayusa, planta nativa da Amazônia Foto: Diego Aguilar/Divulgação
A guayusa é uma planta nativa da Amazônia, consumida sob a forma de chá em diversas regiões do Equador. A família de Esthela promovia “guayusadas”, durante as quais os idosos compartilhavam seus ensinamentos e sonhos, e falavam sobre sua conexão com a terra, enquanto consumiam o chá.
Assim nasceu uma agroindustria comunitária, produtora de extrato de guayusa, onde hoje trabalham 12 famílias. “Quando começamos, nós produzíamos 150 garrafas. Atualmente produzimos de 3 a 5 mil garrafas por mês. O caminho foi difícil, inclusive para obter apoio público para entender as normas sanitárias, registrar os produtos…”, ela conta.
As folhas são adquiridas de outras mulheres indígenas, que produzem a guayusa em sistemas agroflorestais, em meio a mais de 150 espécies nativas. “A guayusa representa o espírito da mulher, por isso respeitamos a sabedoria delas delas. Tendo um mercado justo para a guayusa, elas têm um incentivo real para manter a floresta em pé”, ressaltou Esthela Noteno.
TedxAmazonia
A primeira edição do TedxAmazonia fora do Brasil desembarcou nas cidades de Banos e Puyo, porque ficam na área de transição entre os Andes e a Amazônia, sendo consideradas a “porta de entrada” para a floresta.
A coorganizadora do TEDxAmazonia Verônica Reed lembrou que 40% do território amazônico está em oito países fora do Brasil.
“Os povos originários dos Andes e da Amazônia habitaram aqui muito antes dos países serem divididos politicamente. A Amazônia começa nos glaciares andinos, que dão origem aos rios”.
O evento foi realizado entre os dias 27 e 31 de agosto, reunindo 30 palestrantes indígenas e não-indígenas, que realizam trabalhos de conservação ou pesquisa sobre a Amazônia.
O organizador do evento, Rodrigo Cunha, diz que a mensagem principal é de alerta: “Existe uma urgência muito real. Estamos em um ponto de não retorno. Estamos emitindo mais carbono que podemos absorver. Os indígenas enfrentam violência sem procedentes. Já estamos no limite”.
O revezamento entre países deve ser mantido para as próximas edições. Em junho do ano que vem, o evento será realizado em Belém (PA), e em 2028 a expectativa é de que volte ao Equador.
*A repórter acompanhou o evento a convite da organização do TEDXAmazonia.
Fonte: Agência Brasil