ETFs mudam arquitetura das carteiras e redefinem espaço da gestão ativa
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Por Agência Estado
Um dos exemplos mais claros de mudança na construção do portfólio vem da Suno Consultoria. Há cerca de dois ou três anos, a casa decidiu retirar os multimercados de sua alocação recomendada. Segundo o diretor de investimentos João Arthur, a decisão não foi apenas uma reação ao “desempenho ruim da classe”, mas à percepção de que muitos fundos ofereciam uma combinação de riscos que poderia ser obtida de forma mais barata por meio de ETFs.
Na avaliação da Suno Consultoria, muitos multimercados acabavam concentrando exposições a juros, Bolsa brasileira e ativos no exterior sem necessariamente entregar uma descorrelação suficiente do restante da carteira. E a mudança também trouxe, segundo João Arthur, mais transparência para o investidor – enquanto o cotista de um multimercado depende das decisões do gestor para entender a composição e o desempenho do fundo, o ETF, que replica um índice, permite saber com maior clareza e agilidade qual exposição está sendo comprada.
Na Nord Investimentos, a mudança ocorre de forma mais gradual. O sócio-fundador Renato Breia diz que a casa reduziu a exposição a multimercados tradicionais e vem migrando parte da alocação em ações individuais para ETFs. Em renda fixa, porém, a substituição não é completa, com os títulos do Tesouro ainda fazendo sentido para alguns clientes e estratégias.
Por outro lado, Pedro Lérias, sócio e diretor responsável pela gestão de investimentos da Carpa Family Office, pondera que replicar a amplitude de ativos e estratégias dos multimercados pode ser um desafio pela disponibilidade atual do mercado brasileiro. Na Carpa, os ETFs têm sido mais utilizados para substituir “uma parte pequena” da alocação em gestão ativa de renda variável. “A depender da estratégia aplicada, a diferença pode ser muito mais do que simplesmente alocar em um índice passivo em comparação a uma gestão ativa. Eles podem ser instrumentos que permitem refletir uma alocação tática ou uma exposição a determinados fatores de risco ou temas específicos”, afirma o executivo.
Alternativa para operar juros
Sem os multimercados, a Suno Consultoria passou ETFs principalmente pela exposição a títulos públicos indexados à inflação. E esse tipo de exposição é de fato a favorita entre os alocadores ouvidos pela Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. Na Prinz Capital, o movimento tem uma razão adicional: a possibilidade de manter uma exposição mais precisa à curva de juros sem precisar recompor a posição a cada vencimento.
O head de Wealth Management da Prinz, Daniel Ribeiro, afirma que ETFs de NTN-B com duração constante passaram a ser usados pela casa em substituição a parte da alocação direta em títulos públicos. Segundo o executivo, antes desses produtos estarem disponíveis, a estratégia exigia comprar títulos com vencimentos determinados e, quando eles venciam, pagar o imposto e reinvestir os recursos. Os ETFs, diz ele, ajudaram a tornar esse processo mais eficiente.
Custos pesam na balança
O custo é outro fator citado pelos alocadores. João Arthur, da Suno Consultoria, lembra que um fundo multimercado tradicional tem cerca de 2% de taxa de administração e 20% da taxa de performance, enquanto a média dos ETFs tem taxa próxima de 0,3% ao ano. A diferença, portanto, pode chegar a 1,7 ponto porcentual, embora a comparação dependa do produto e, principalmente, do retorno líquido entregue por cada estratégia.
O que vem é o beta – e tudo bem
A lógica das casas não é simplesmente abandonar a gestão ativa, mas sim permitir que os ETFs ocupem o espaço do beta, enquanto os gestores ativos são selecionados para buscar alfa e descorrelação. Na visão dos alocadores, isso tende a ficar concentrado em nichos em que a gestão ativa consiga de fato alcançar rentabilidades interessantes e justificar seus custos.
É o caso de estratégias específicas de ações, crédito, ativos alternativos e outras teses menos facilmente replicáveis por índices. Segundo os alocadores, portanto, a expansão dos ETFs não elimina a gestão ativa, mas muda seu espaço, o que pode levar a ajustes para a sustentabilidade do segmento.
“A indústria de gestão ativa está sofrendo há alguns anos, seja por uma migração de capital para instrumentos ligados ao CDI, seja por terem efetivamente gerado menos alfa (ou alfa negativo). Certamente, a competição de veículos baratos que oferecem diversificação gera desafios adicionais para uma indústria que ainda está se reestruturando”, avalia Lérias, da Carpa. Para ele, algumas perspectivas e tendências para a sustentabilidade da gestão ativa é a consolidação, a adoção de modelos multi-mesas e diminuição de taxas.