IA nos jogos: a indústria abraça, os devs resistem — e o público não está nem aí

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Tem um debate esquentando nos bastidores da indústria de games, e ele é mais barulhento do que parece.

Por Redação CGN

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Tem um debate esquentando nos bastidores da indústria de games, e ele é mais barulhento do que parece. De um lado, estúdios correndo para enfiar inteligência artificial em cada etapa da produção. De outro, uma ala de desenvolvedores e jogadores erguendo tochas contra qualquer uso de IA. E, no meio disso tudo, a maioria silenciosa: o jogador comum, que só quer baixar o jogo no celular e se divertir — pouco importa se um algoritmo ajudou a construí-lo.

Uma pesquisa recente colocou números nessa história. E os números são reveladores.

O público não liga (e a pesquisa prova)

A consultoria Circana, antiga NPD Group, ouviu pouco mais de 2,5 mil pessoas nos Estados Unidos em duas rodadas — março de 2024 e dezembro de 2025 — perguntando como elas se sentiriam ao descobrir que uma IA generativa foi usada no desenvolvimento de um jogo, seja em arte, narrativa, diálogos, música ou texto.

O resultado desmonta a ideia de que existe uma revolta em massa. A maioria respondeu que simplesmente não faz diferença: os indiferentes saltaram de 46% para 52% entre as duas rodadas. Somando esses aos que se dizem mais inclinados a comprar por causa da IA, chega-se a 60% do público que ou não se importa, ou até vê valor na tecnologia — como jogos saindo mais rápido.

E os revoltados? Existem, mas são minoria. Quem disse que se recusaria a comprar ou ficaria menos propenso oscilou de 22% para cerca de 27% em menos de dois anos. É uma parcela vocal, ativa nas redes — mas que não chega a um terço do total. Segundo o conselheiro da Circana, Mat Piscatella, a leitura é direta: o jogador médio quer jogar, com ou sem IA no processo. No fim, o que o público valoriza é a experiência — a diversão, o desafio e até as amizades que os jogos online criam mundo afora —, e não os bastidores da produção.

A indústria já decidiu — e está acelerando

Do lado de quem produz, a adoção não é tendência, é realidade consolidada. Estudos que integraram bem essas ferramentas completam o mesmo trabalho em 60% a 70% do tempo anterior, e a geração de arte e recursos visuais teve o tempo de produção reduzido entre 70% e 90%. No ambiente mobile, onde o volume de lançamentos é gigante e os ciclos são curtíssimos, esse ganho de velocidade vale ouro. E a pressão só aumenta: a cada temporada surge uma nova leva de lançamentos muito aguardados, e os estúdios precisam entregar cada vez mais rápido para acompanhar o apetite do público.

A adoção aparece nos números da própria categoria: uma pesquisa da GDC 2026 aponta o ChatGPT como ferramenta líder entre profissionais de games, com 74% de uso. E a projeção é de que 95% dos novos jogos usem ferramentas de IA no desenvolvimento até 2027. Ou seja: o barco já zarpou.

Os pegos com a boca na botija

O problema é que nem todo mundo assume. Vários jogos de peso foram flagrados por jogadores usando conteúdo gerado por IA que “escorregou” para a versão final — de grandes produções de tiro a RPGs aclamados. A desculpa costuma ser sempre a mesma: eram placeholders, artes temporárias que seriam trocadas antes do lançamento e que, “misteriosamente”, ficaram.

E há consequências. Um dos RPGs mais elogiados do período perdeu prêmios importantes de premiações independentes justamente após a descoberta de assets criados por IA — os troféus foram parar nos segundos colocados. A mensagem para a indústria foi clara: usar IA sem transparência pode custar caro em reputação.

A conta que os desenvolvedores estão pagando

Aqui está o lado desconfortável da história, e a razão da revolta não ser totalmente sem fundamento. A IA está, sim, desempregando gente. Estúdios eliminam funções consideradas “redundantes” e repassam o trabalho menor para as ferramentas generativas. Pior: profissionais que se recusam a adotar a tecnologia também acabam dispensados — e isso atinge com mais força a ala jovem, que ainda está construindo carreira.

Os veteranos, esses já conhecem a lógica cruel do setor: adapte-se ou saia. É o velho “evolua ou morra” que sempre regeu a indústria, agora turbinado. Não à toa, figuras influentes já trataram a IA como algo simplesmente inevitável — inclusive rebatendo, com certa ironia, os estúdios que pedem desculpas por usá-la, e mandando os críticos “amadurecerem”. A frase é grosseira, mas expressa bem o clima entre os que veem a tecnologia como caminho sem volta.

E o “gameslop”?

Há ainda um efeito colateral que preocupa até quem não é contra a IA. O período de 2025-2026 popularizou o termo “gameslop“: títulos de baixo esforço, montados quase inteiramente com IA e com pouca curadoria humana, entupindo as lojas de aplicativos. Mais jogos não significam jogos melhores — e, no celular, onde qualquer um publica, distinguir o que tem cuidado humano do que é produção automatizada em massa virou missão difícil. Um bom jogo entrega algo real: diversão, desafio e até benefícios cognitivos, como os quebra-cabeças que funcionam como exercício mental. Isso, um amontoado de assets gerados às pressas dificilmente entrega.

Um segmento à parte: os jogos ao vivo

O uso de IA na produção não se limita aos grandes títulos de console e aos jogos casuais de celular. Ele também alcança nichos específicos, como o dos jogos de cassino ao vivo — de mesas de blackjack à roleta ao vivo —, onde a tecnologia entra na personalização da experiência e na criação de conteúdo em escala.

A diferença é que, nesse segmento, há uma linha bem definida entre o que a IA faz e o que ela não toca: a produção e a apresentação podem ganhar reforço dos algoritmos, mas o resultado de cada rodada segue determinado por sistemas próprios e auditados. É um bom exemplo de como a IA se adapta a diferentes cantos da indústria, cada um com suas próprias regras.

O veredito (por enquanto)

Juntando as peças, o retrato é este: a indústria abraçou a IA e não vai soltar; uma minoria barulhenta resiste com razões legítimas, sobretudo trabalhistas; e a maioria do público, no fim, só quer um bom jogo. Se a IA entregar títulos mais rápidos e com qualidade, o jogador comum vai aplaudir — mesmo que, nos bastidores, isso signifique demissões e mais pressão sobre quem fica.

A tecnologia, no fim das contas, é uma ferramenta poderosa. O que a indústria ainda precisa descobrir é onde traçar a linha entre usá-la para criar melhor e usá-la para cortar custos a qualquer preço. Porque essa, sim, é uma decisão que o público um dia pode passar a notar.

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