PF conclui que gelo severo e sequência de falhas levaram à queda do avião da Voepass que matou 62

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Foto: Reprodução/CGN

Por Luiz Haab

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A Polícia Federal concluiu que a queda do ATR 72 da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), em 9 de agosto de 2024, foi resultado de uma sequência de falhas técnicas, operacionais e meteorológicas. As causas do acidente Voepass constam em um laudo pericial de quase 200 páginas, obtido pela CGN. Os nomes das pessoas citadas no inquérito serão divulgados nesta quinta-feira (6).

O documento mostra que o avião enfrentou condições severas de formação de gelo durante o voo entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP), justamente em uma região onde o fenômeno já era previsto por órgãos oficiais da aviação — um dos elementos centrais para entender as causas do acidente Voepass.

Falha no sistema de degelo e alertas ignorados

Segundo a perícia, poucos minutos após a decolagem, o sistema da aeronave emitiu um alerta de formação de gelo. Em seguida, surgiu um novo aviso indicando falha no sistema responsável pela proteção contra gelo nas asas (Airframe Fault), reduzindo uma das principais barreiras de segurança do avião.

Mais de uma hora depois, ao voltar a enfrentar uma área de intenso congelamento, a situação se agravou rapidamente. A aeronave passou a emitir alertas sucessivos de perda de desempenho, velocidade abaixo do esperado e necessidade de aumento imediato de velocidade. Em seguida, vieram os alarmes de estol — quando o avião perde sustentação.

As gravações de cockpit analisadas pela Polícia Federal mostram que os próprios pilotos comentam sobre o acúmulo de gelo e percebem que o sistema de degelo não respondia como esperado. Em determinado momento, um dos pilotos afirma: “Essa bosta não tá funcionando, né?”, em referência ao sistema de proteção contra gelo.

De acordo com a perícia, embora os pilotos tenham recebido diversos alertas e existissem procedimentos específicos previstos em manual para esse tipo de emergência, essas ações não foram executadas integralmente. O laudo aponta que a resposta operacional da tripulação foi insuficiente para impedir a degradação das condições de voo.

Histórico de falhas não registradas

Outro ponto considerado relevante pelos peritos é o histórico da aeronave. A investigação encontrou indícios de que falhas semelhantes no sistema de degelo já haviam ocorrido em voos anteriores. Essas ocorrências, no entanto, não teriam sido registradas adequadamente nos diários técnicos do avião, o que teria impedido a manutenção de ter conhecimento completo da recorrência do problema.

A Polícia Federal também identificou falhas no despacho operacional da aeronave antes da decolagem: uma restrição prevista na Lista de Equipamentos Mínimos (MEL) — documento que define o que pode ou não estar em pane para a aeronave decolar — não teria sido observada diante das condições meteorológicas do voo.

O que a perícia descartou

Os peritos descartaram as hipóteses de explosão em voo, incêndio antes do impacto ou ruptura estrutural da aeronave. Pela análise dos destroços e dos vídeos da queda, o avião permaneceu estruturalmente íntegro até perder completamente a sustentação, entrar em estol e, depois, em giro descontrolado antes de atingir o solo.

O acidente ocorreu por volta das 13h30 (horário de Brasília) do dia 9 de agosto de 2024, quando a aeronave caiu sobre uma residência em Vinhedo. Todos os 58 passageiros e os quatro tripulantes morreram. Não houve vítimas em solo.

Embora o laudo pericial aponte uma sucessão de falhas operacionais, técnicas e meteorológicas como determinantes para a tragédia, a definição de eventuais responsabilidades criminais pelas causas do acidente Voepass ainda depende da conclusão do inquérito conduzido pela Polícia Federal e das decisões da Justiça.

Resumo do que aconteceu

O que aconteceu no acidente aéreo da Voepass em 2024 e por que ele é considerado tão grave?
R: No dia 9 de agosto de 2024, um avião turboélice ATR da Voepass Linhas Aéreas, realizando o voo 2283 de Cascavel/PR para Guarulhos/SP, caiu em Vinhedo, interior de São Paulo, matando todas as 62 pessoas a bordo (58 passageiros e 4 tripulantes). O acidente é considerado uma das maiores tragédias da aviação brasileira nas últimas décadas devido ao elevado número de vítimas e à gravidade das circunstâncias que envolveram a queda.
Quem eram as vítimas do acidente do voo 2283 da Voepass?
R: As vítimas eram 58 passageiros e 4 tripulantes, incluindo pessoas de diversas cidades, especialmente de Cascavel/PR, que perderam 25 moradores. Entre as vítimas estavam profissionais de diferentes áreas, como a médica Arianna Albuquerque Estevan Risso e a nutricionista Ana Caroline Redivo. A lista completa dos nomes foi divulgada pela Voepass e amplamente repercutida na imprensa.
Quando e onde ocorreu a queda do avião da Voepass?
R: O acidente ocorreu em 9 de agosto de 2024, por volta das 13h30, quando a aeronave caiu em um condomínio de chácaras no município de Vinhedo, interior de São Paulo, minutos antes do pouso previsto no aeroporto de Guarulhos.
Quais foram as causas apontadas para o acidente até o momento?
R: O relatório preliminar indicou acúmulo de gelo nas asas como hipótese principal para a perda de sustentação da aeronave. Posteriormente, um laudo técnico elaborado por especialistas e obtido pelas famílias apontou uma sucessão de falhas operacionais, problemas de manutenção e omissões, incluindo falhas no sistema de degelo e uma cultura interna que desestimulava o registro formal de defeitos. O relatório final do Cenipa ainda aguarda divulgação oficial.
Que irregularidades e falhas foram identificadas na operação da Voepass antes do acidente?
R: Segundo informações de familiares das vítimas e do advogado da associação, a aeronave já apresentava problemas mecânicos antes do voo, como falhas no sistema de degelo, e havia relatos anteriores de pilotos sobre defeitos recorrentes. Existia uma cultura interna na empresa que pressionava funcionários a não registrarem formalmente esses problemas. Além disso, a Voepass acumulava centenas de processos administrativos e milhões de reais em multas antes da tragédia.
Como as autoridades e órgãos de fiscalização atuaram em relação à Voepass antes e depois do acidente?
R: A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) já havia aplicado centenas de processos administrativos e multas à Voepass antes do acidente. Apesar disso, a empresa continuou operando normalmente e realizou mais de 2.000 voos após o acidente, até que, em junho de 2025, a Anac cassou o certificado de operação da companhia. O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) conduz a investigação técnica, e a Polícia Federal investiga criminalmente o caso.
Havia consciência prévia sobre os riscos e irregularidades no avião acidentado?
R: Conforme o advogado da associação de familiares, já foi identificado que havia consciência prévia sobre as irregularidades da aeronave, o que impediria que ela estivesse voando em condições seguras. Pilotos e tripulantes relatavam falhas recorrentes, mas havia pressão para manter as aeronaves em operação mesmo diante de problemas técnicos.
Como foi a reação do governo federal diante da tragédia?
R: O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decretou luto oficial de três dias em todo o país pelas vítimas do acidente, a partir de 9 de agosto de 2024. Lula também manifestou solidariedade às famílias e pediu um minuto de silêncio em evento público no mesmo dia do desastre.
Quais desdobramentos legais e investigações estão em andamento após o acidente?
R: A Polícia Federal abriu inquérito para investigar as causas e eventuais responsabilidades criminais pelo acidente. O Ministério Público aguarda a conclusão do inquérito para analisar os elementos reunidos e decidir sobre denúncias contra os envolvidos, sejam eles funcionários da empresa ou agentes de órgãos de fiscalização. As famílias das vítimas, representadas por um corpo jurídico, acompanham de perto as investigações e cobram responsabilização criminal dos responsáveis.
O que as famílias das vítimas têm feito desde o acidente?
R: As famílias fundaram uma associação para lutar por justiça, acompanhar as investigações e buscar a responsabilização dos responsáveis, diretos e indiretos, pelo acidente. Elas também promovem homenagens às vítimas, como o lançamento de livros e eventos em memória dos entes queridos. Parte das famílias aceitou acordos de indenização, mas a maioria reforça que a luta principal é por justiça e prevenção de novas tragédias.
Como a sociedade reagiu ao acidente e quais homenagens foram realizadas?
R: O acidente causou grande comoção nacional, com homenagens e cerimônias religiosas em memória das vítimas nas cidades de origem, como Cascavel e Vinhedo. Profissionais, como a nutricionista Ana Redivo, foram homenageados em eventos públicos. O presidente da República decretou luto oficial e houve manifestações de solidariedade em todo o país.
Quais golpes e fraudes surgiram após a tragédia e como as famílias reagiram?
R: Logo após o acidente, perfis falsos foram criados nas redes sociais usando fotos das vítimas para solicitar doações via Pix, alegando custear o translado dos corpos. As famílias denunciaram os golpes, afirmaram não pedir contribuições financeiras e pediram ajuda da população para denunciar as contas fraudulentas.
Quais são as expectativas das famílias em relação ao relatório do Cenipa e à responsabilização dos culpados?
R: As famílias aguardam com expectativa a divulgação do relatório final do Cenipa, prevista para julho de 2026, que deve consolidar oficialmente as causas do acidente. Elas esperam que, com a conclusão das investigações, o Ministério Público denuncie criminalmente todos os que, por ação ou omissão, contribuíram para a tragédia.
Qual foi o impacto psicológico e social do acidente para os familiares das vítimas?
R: O impacto foi profundo e devastador, com relatos de sofrimento intenso, luto prolongado e até mesmo morte de familiares incapazes de suportar a dor. Muitos buscam dar sentido à perda por meio de ações de memória e luta por justiça, como a publicação de livros e projetos sociais em homenagem às vítimas.
O que se sabe sobre a atuação dos pilotos e tripulantes no contexto do acidente?
R: Segundo familiares, os pilotos e tripulantes operavam sob pressão constante para evitar atrasos e manter as aeronaves em operação, mesmo diante de problemas técnicos. Havia uma normalização de situações de risco devido à cultura interna da empresa, e as famílias consideram que a tripulação também foi vítima das circunstâncias impostas pela gestão da Voepass.
A Voepass continua operando voos atualmente?
R: Não. Em junho de 2025, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) cassou o certificado de operação da Voepass, encerrando oficialmente as atividades da companhia aérea.
Quais medidas as famílias esperam que sejam tomadas para evitar novas tragédias na aviação brasileira?
R: As famílias defendem uma revisão rigorosa das práticas de fiscalização, maior responsabilização criminal de gestores e agentes públicos omissos, e mudanças na cultura organizacional das companhias aéreas para garantir que falhas técnicas sejam relatadas e corrigidas prontamente, evitando que interesses econômicos se sobreponham à segurança dos passageiros.
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