Enquanto se debate um vídeo de IA, ninguém debate por que o brasileiro está parcelando pizza

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Enquanto o país discute o uso de inteligência artificial na campanha eleitoral, taxa das blusinhas e alta de preços mostram que o problema real do bolso do brasileiro é outro.
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Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Por Redação CGN

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O vídeo criado com inteligência artificial para reproduzir a imagem e a voz do ex-presidente Jair Bolsonaro, exibido durante o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, foi identificado desde o início como uma simulação digital. A campanha sustenta que cumpriu as regras eleitorais, mas o material foi questionado no Tribunal Superior Eleitoral.

A legislação eleitoral autoriza o uso de IA para simular voz e imagem de candidato ou pessoa pública, desde que fique claro, desde o início, que se trata de uma simulação. E é aqui que a indignação seletiva aparece. Um ex-presidente preso, impedido de dar entrevista, de usar redes sociais, de receber visita política, recorre a um recurso tecnológico permitido, identificado, transparente — e vira escândalo. Enquanto isso, o eleitor brasileiro segue sendo exposto, eleição após eleição, a estratégias que não têm nada de transparentes: dancinha de candidato que não fala uma proposta em oito segundos de vídeo, promessa populista que ninguém pretende cumprir, propaganda de governo que finge resolver problema estrutural com medida de calendário eleitoral.

A “taxa das blusinhas” é o exemplo perfeito

Pegue o caso da chamada “taxa das blusinhas”. O governo anuncia a retirada da cobrança sobre compras internacionais bem no período em que isso rende manchete e agrada o consumidor — e todo mundo no mercado sabe que a medida tem prazo de validade, que ela deve voltar assim que a poeira eleitoral baixar. Isso é enganar o eleitor de forma muito mais eficaz do que qualquer vídeo com aviso de “isso é uma simulação de IA” no início. E, ainda assim, não é isso que motiva investigação, nota de repúdio ou ameaça de cassação.

Essa contradição não é só hipocrisia política. Ela expõe algo mais grave: Lula não sabe — e talvez não possa — governar um país do tamanho e da complexidade do Brasil sem recorrer a paliativo de curto prazo. Um governo que resolve problema de competitividade mexendo em tarifa de importação, em vez de mexer na raiz do problema, está admitindo que não tem projeto, só tem reação.

O problema não é imposto sobre importado. É imposto sobre quem produz aqui dentro

A resposta correta para um empresário brasileiro perdendo competitividade não é jogar imposto em cima do produto estrangeiro. É reduzir a carga tributária de quem produz no Brasil. É reduzir o risco jurídico de quem contrata, de quem investe, de quem abre empresa. É tornar mais simples — não mais caro — gerar emprego formal neste país.

O caminho inverso, o que o governo tem escolhido, é o de sustentar consumo com auxílio em vez de estimular trabalho, o de fechar a torneira do produto importado em vez de abrir a torneira do investimento produtivo. É politicamente mais fácil, e economicamente mais caro — a conta chega depois, na forma de menos emprego, menos investimento e mais gente dependendo do Estado para sobreviver.

O Brasil já chegou no parcelamento de pizza

O brasileiro comum não precisa de estatística para saber que está pior. Basta olhar o próprio bolso: até pizza já está sendo parcelada. Esse é o retrato de um país em que o crédito ficou curto, a renda ficou curta e o horizonte ficou curto.

E se o caminho não mudar, a fase que parece a pior vai deixar de ser a pior. Quem hoje vive de auxílio, ou até de salário do setor público, vai sentir na pele o que é depender de um Estado que também está sem fôlego para sustentar ninguém. Não é ameaça, é matemática: um país que taxa quem produz, protege quem não compete e financia consumo com dívida não tem como sustentar indefinidamente quem depende dele.

A discussão sobre o vídeo de Bolsonaro devia servir para isso: mostrar que a régua da indignação no Brasil está torta. Se o problema fosse mesmo enganar o eleitor, sobraria muito mais o que investigar do que um vídeo que começa avisando que é falso.

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