Polícia usa gás lacrimogêneo e cassetetes para dispersar protesto estudantil na Índia
Publicado em
Por Agência Estado
A polícia indiana usou gás lacrimogêneo e cassetetes para dispersar a multidão em Jantar Mantar, local designado para protestos em Nova Délhi, na Índia, na noite de quarta-feira, 22, em um segundo episódio do tipo nesta semana.
Em seguida, na manhã desta quinta-feira, 23, milhares de jovens manifestantes acamparam nas ruas da capital da Índia, desafiando novas restrições na mais recente demonstração de força de um movimento que se tornou um dos maiores desafios ao governo do primeiro-ministro Narendra Modi.
Os protestos dos “Baratas” começaram há mais de um mês por causa de supostos vazamentos em alguns dos exames de admissão mais concorridos do país para as faculdades de medicina e cargos públicos. Desde então, o movimento se expandiu para além das reclamações sobre os exames, atraindo profissionais e famílias e canalizando uma frustração mais ampla.
Na segunda-feira, 20, milhares de manifestantes já tinham desafiado as restrições e marchado em direção ao Parlamento antes da polícia também dispersar o protesto com gás lacrimogêneo e cassetetes.
Os manifestantes se reorganizaram na manhã desta quinta-feira e retornaram ao local do protesto, apesar dos bloqueios nas vias, enquanto as autoridades suspenderam os serviços do metrô de Nova Délhi em 16 estações da região central da cidade, em uma tentativa de limitar o acesso às manifestações.
Modi tenta conter impacto dos protestos
A questão dos vazamentos de provas tornou-se um símbolo da frustração de milhões de jovens indianos. Os manifestantes exigem a renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, reformas no sistema de exames e indenização às famílias de estudantes que morreram por suicídio após os vazamentos.
Diante da pressão crescente, Modi abordou publicamente o tema pela primeira vez nesta quinta-feira e anunciou tribunais de tramitação acelerada para julgar casos de vazamento de provas. Esses tribunais especiais foram criados para acelerar processos no sistema de Justiça da Índia, conhecido pela lentidão.
“Nada é mais importante do que o bem-estar e o futuro da nossa juventude!”, escreveu Modi na rede social X. O anúncio não acalmou os manifestantes, que afirmaram que Modi não respondeu às demandas por responsabilização e reformas.
“Em vez de oferecer uma solução que seja conveniente para ele, deveria trabalhar por uma solução que seja conveniente para o país e dar o exemplo”, disse o estudante de Direito Daksh Bhargava.
Partido Barata mantém tom satírico
Líderes do Partido Popular Barata, que deu início ao movimento de protesto, disseram que não encerrarão as manifestações até que o ministro da Educação renuncie. Mantendo o estilo bem-humorado do movimento, seu fundador, Abhijeet Dipke, respondeu publicando um meme de Pradhan com a legenda: “Olá, meu nome é Nada.”
O movimento Barata começou como uma campanha satírica na internet em maio e foi para as ruas em junho deste ano, por meio de pequenos protestos em várias cidades. Ganhou força depois que o ativista Sonam Wangchuk aderiu às manifestações e iniciou uma greve de fome que já dura mais de três semanas. No fim de semana, a polícia transferiu Wangchuk à força para um hospital.
Protestos refletem crescente insatisfação entre os jovens
Para muitos jovens indianos, os protestos se tornaram uma das poucas formas visíveis de dissidência em um país onde manifestações contra o governo Modi levaram a uma repressão mais ampla contra ativistas, opositores e protestos públicos.
O rápido crescimento do movimento para além dos grupos estudantis reflete uma frustração mais ampla entre os jovens indianos e acompanha uma tendência observada no Sul da Ásia, onde os jovens têm liderado movimentos antigovernamentais nos últimos anos.
O movimento também conquistou apoio entre indianos de todas as idades devido às preocupações com a responsabilização do governo, o desemprego e as oportunidades econômicas.
Partidos de oposição apoiaram os protestos e usaram o tema para pressionar o governo no Parlamento. Também foram realizadas manifestações e atos de solidariedade em outras cidades indianas, refletindo como o movimento se espalhou para além da capital.
A Índia tem uma das populações mais jovens do mundo, com milhões de pessoas entrando em um mercado de trabalho que tem enfrentado dificuldades para criar empregos estáveis e bem remunerados em número suficiente. Apesar de anos de rápido crescimento econômico, muitos jovens afirmam que suas perspectivas não melhoraram.
Como um dos maiores blocos eleitorais do país, a juventude indiana também pode se tornar uma força política cada vez mais importante nas próximas eleições.(Com informações da Associated Press)