Congolês leva Lumumba para a Copa e celebra legado do pan-africanista

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Por CGN

Imóvel durante a partida, o congolês leva para os estádios da América do Norte a mesma pose da estátua de Lumumba instalada em Kinshasa, a capital do país africano.

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Nesta semana, na terça-feira (23), Mboladinga instalou sua “estátua viva” no jogo entre a RD do Congo e a Colômbia, em Guadalajara, no México. Antes, ele tentou entrar nos Estados Unidos para ver a estreia de seu país na Copa de 2026, mas foi barrado por conta da epidemia de ebola que afeta o Congo. 

Sem o visto norte-americano, Mboladinga deve retornar à Kinshasa, onde vive e assistirá ao próximo jogo dos Leopardos, apelido da seleção congolesa. A partida será no sábado (27), contra o Uzbequistão. 

Mesmo ausente no restante da Copa, o ex-padeiro e torcedor já passou o seu recado, ao rememorar o legado de Lumumba e representar a insurgência dos povos africanos, na avaliação da coordenadora do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo, Maria do Carmo Rebouças, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFRB).

“A trajetória de Lumumba expressa a luta ativa [dos países] pela autodeterminação, pela soberania política, pelo controle dos próprios recursos, e, consequentemente, pelo próprio futuro”, afirmou a pesquisadora. 

Para ela, a performance Lumumba Vive é “um gesto simples que carrega todo o continente” e, por isso, o artista coleciona fãs.

Maria do Carmo acredita que, com a performance, Mboladinga conseguiu ainda deslocar o futebol do campo do entretenimento para o da reflexão sobre o legado do passado colonial.

“Esse fã sustenta uma imagem silenciosa, mas com grande peso: a de que o Congo não esqueceu, a de que África não esqueceu, e a de que a independência política, sem soberania econômica e no modo de pensar, é inconclusa”, explicou, em entrevista à Agência Brasil.

O pesquisador lembrou que vários líderes nacionalistas seguiram os passos de Lumumba, embora também tenham terminado assassinados, como o ex-primeiro-ministro congolês. É o caso de Thomas Sankara, em Burkina Fasso, e Amílcar Cabral, em Cabo Verde, país que inclusive disputa sua primeira Copa em 2026. 

“As independências africanas foram conquistadas com muito  sangue, suor e lágrimas”. 

 

Esse mesmo gesto tem sido repetido por jogadores espalhados pela diáspora africana, chamando atenção para o Congo. Um deles foi Nico Williams, espanhol de ascendência ganesa.

“Essa mensagem alerta o mundo sobre o que o Congo está passando”, observa o professor de História da África da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o angolano Nuno Carlos de Fragoso Vidal. “Esta é uma guerra esquecida, com milhares de mortos ao longo de anos, muita ingerência externa, pilhagem e descaso da comunidade internacional”.

Quem foi Lumumba?

Lumumba foi o primeiro governante do Congo eleito democraticamente após a independência da Bélgica, em 1960. Por suas ideias, o primeiro-ministro tornou-se símbolo do pan-africanismo, movimento que defende a união dos povos africanos.

Para Lumumba, a riqueza do país em recursos naturais deveria ser gerenciada em favor dos congoleses. Após sua morte, porém, o Congo mergulhou em décadas de conflitos pelo controle da exploração de seus recursos minerais.  

Até hoje, o país sofre com guerras internas em torno dessas riquezas, o que agrava crises como a do ebola, e mantém a população na pobreza. Para participar da Copa, a delegação congolesa precisou ficar em quarentena por causa do surto da doença.

Após pressão, em 2022, a Bélgica reconheceu a “responsabilidade moral” no crime e devolveu à família de Lumumba um dente com coroa de ouro, guardado por um policial como relíquia.

Na época, o  então primeiro-ministro belga, Alexander de Croo, disse à imprensa: “Esta é uma verdade dolorosa e desagradável, mas que precisa ser dita: um homem foi assassinado por suas convicções políticas, suas palavras, seus ideais”.

Responsabilidade de Bélgica, Brasil e EUA

A Bélgica tem uma longa história de dominação no Congo, que data dos anos 1880, quando o Rei Leopoldo II governou o país como um feudo pessoal, assassinando e mutilando deliberadamente quem se opusesse ao enriquecimento da família real.

Pelos anos de dominação e pelos crimes, o professor da UFRJ defende que o país europeu, como reparação, deveria trabalhar pelo fim das guerras na ex-colônia.

“Para se responsabilizar, [a Bélgica,] por exemplo, poderia demonstrar mais interesse na situação e liderar uma agenda internacional que busque uma solução de paz e desenvolvimento”, avaliou Vidal, que reforçou que a economia do Congo permanece baseada no extrativismo, parte do ciclo de subdesenvolvimento e exploração.

Por terem recebido um grande número de pessoas negras, Brasil e Estados Unidos também deveriam se juntar contra o legado da colonização em África, argumenta o professor.

 

Seleção da República Democrática do Congo – Reprodução/X

Fonte: Agência Brasil

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