
“Falta responsabilização e sobra conveniência”; analista explica por que o ‘sistema’ não deixa o Brasil melhorar
Essa foi a provocação central da entrevista concedida pelo empresário e bacharel em Direito Heroldo Secco Junior, nesta quarta-feira (29), no Estúdio CGN. Mais do que...
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Por Luiz Haab
Em mais um ciclo eleitoral, o Brasil volta a encenar um roteiro conhecido. Palanques se erguem com promessas de redução de impostos, estímulo ao consumo e crescimento acelerado. O discurso é sedutor — e recorrente. Mas, fora do foco principal da campanha, uma pergunta mais estrutural insiste em permanecer à margem do debate público: até que ponto um governante eleito tem, de fato, poder para mudar o rumo do país?
Essa foi a provocação central da entrevista concedida pelo empresário e bacharel em Direito Heroldo Secco Junior, nesta quarta-feira (29), no Estúdio CGN. Mais do que discutir nomes ou projetos eleitorais, a conversa avançou sobre um tema menos explorado — e talvez mais determinante: o funcionamento do próprio sistema político-institucional brasileiro.
Para Secco Junior, há um descompasso entre o ideal democrático inscrito na Constituição de 1988 e sua aplicação prática ao longo das últimas décadas. Segundo ele, o texto que nasceu com a ambição de proteger o cidadão acabou, em muitos momentos, sendo reinterpretado de forma a favorecer estruturas de poder já consolidadas. “A Constituição é apresentada como cidadã, mas nem sempre protege o cidadão na prática”, afirma.
A crítica não se limita ao conteúdo da lei, mas à forma como ela vem sendo alterada e interpretada. Emendas sucessivas e decisões judiciais, especialmente nas instâncias superiores, teriam, na visão do entrevistado, distanciado o país da intenção original dos constituintes. O resultado seria um ambiente institucional mais complexo, mais lento e, em certos aspectos, menos previsível.
Essa complexidade, por sua vez, impacta diretamente a governabilidade. O presidente da República, frequentemente visto pela população como figura central e decisiva, atua dentro de um sistema fragmentado, onde o poder se distribui entre Executivo, Legislativo e Judiciário — e, dentro deles, entre múltiplos interesses. “Hoje, mais importante do que eleger o presidente é controlar o Congresso”, observa.
A lógica política, nesse cenário, se reorganiza. Partidos passam a priorizar a formação de maiorias parlamentares, enquanto lideranças estratégicas, como as presidências da Câmara e do Senado, acumulam capacidade de influenciar ou bloquear decisões relevantes. A consequência é um sistema em que mudanças estruturais dependem menos da vontade de um líder e mais da convergência — nem sempre transparente — de forças institucionais.
Outro ponto levantado na entrevista diz respeito ao papel dos partidos políticos. Para Secco Junior, o modelo atual cria incentivos que nem sempre favorecem a qualidade da representação. Com acesso a recursos públicos significativos, as siglas não estariam necessariamente pressionadas a aprimorar critérios de seleção de candidatos ou a fortalecer vínculos programáticos. “Falta responsabilização e sobra conveniência”, resume.
Nesse contexto, a crítica se estende ao próprio eleitorado — não como julgamento, mas como diagnóstico. A ausência de educação política e constitucional desde a base escolar contribuiria para um ciclo em que promessas inviáveis encontram terreno fértil. “Conhecer a Constituição mudaria o nível do debate”, afirma. Mais do que isso, permitiria ao eleitor identificar limites reais de cada cargo e função pública.
A discussão ganha contornos ainda mais amplos quando se aborda o papel do Judiciário. A crescente influência das cortes superiores na vida política do país é vista, por parte da sociedade, como necessária à defesa da democracia. Por outra, levanta questionamentos sobre possíveis excessos e sobre a previsibilidade das decisões. O equilíbrio entre independência e responsabilidade institucional aparece, assim, como um dos grandes desafios contemporâneos.
No pano de fundo de toda a análise está uma sensação compartilhada por diferentes gerações: a de um país que alterna ciclos de esperança e frustração. Promessas se renovam, governos se sucedem, mas os resultados parecem, muitas vezes, convergir para o mesmo ponto.
Ainda assim, a entrevista não se encerra em tom de desalento. Há espaço para uma perspectiva de mudança — ainda que condicionada. Para Secco Junior, transformações são possíveis, desde que acompanhadas de liderança política capaz de enfrentar interesses estabelecidos e de uma sociedade mais consciente de seu papel. “Não basta escolher nomes. É preciso entender as regras do jogo”, afirma.
Essa compreensão passa, inevitavelmente, por um olhar mais atento ao cotidiano político, inclusive no nível local. A escolha de vereadores, por exemplo, é apontada como etapa fundamental na formação das futuras lideranças nacionais. O sistema, afinal, não se sustenta apenas em Brasília — ele começa nas bases.
Ao final, permanece a pergunta que atravessou toda a conversa: o Brasil precisa de novos líderes ou de novas regras? A resposta, talvez, esteja na combinação de ambos — e na disposição coletiva de enfrentar um debate que vai além das campanhas e dos slogans.
Porque, no limite, a questão não é apenas quem governa. É se o país, como está estruturado, permite ser governado.
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