Aprender a caminhar — ou ser carregado para sempre

O paternalismo de Estado não é solidariedade. É controle disfarçado de cuidado....

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Por Redação CGN

Uma das conquistas mais extraordinárias da vida humana é aprender a caminhar. Parece banal hoje, mas chegou um momento em que cada um de nós tombou, ralou os joelhos, levantou e tentou de novo — sem pedir licença para o medo, sem esperar que alguém nos garantisse que não iríamos cair. E foi exatamente essa sucessão de quedas e levantadas que nos tornou livres para ir aonde quiséssemos.

Agora imagine que seus pais, com todo o amor do mundo, nunca tivessem permitido que você tocasse o chão. Que tivessem carregado você no colo cada vez que a possibilidade de uma queda se aproximava. Você estaria hoje, adulto, dependente de alguém para cada deslocamento. Não por falta de capacidade — mas porque nunca lhe deram a chance de descobrir a sua.

Essa metáfora não é poética. É a descrição precisa do que o Estado brasileiro faz com milhões de cidadãos há décadas.

O Bolsa Família e os demais programas assistenciais foram criados, ao menos em tese, para ser uma rede de segurança temporária — o equivalente à mão dos pais que segura a criança nos primeiros passos. O problema é que essa mão nunca foi solta. E o que deveria ser um apoio de transição tornou-se uma estrutura permanente de dependência administrada.

Dados do Ministério do Desenvolvimento Social mostram que o programa atende hoje mais de 21 milhões de famílias. Não há nenhum horizonte político claro para que essas famílias deixem de precisar do benefício. Ao contrário: a cada eleição, o valor sobe, a base cresce, e a narrativa se consolida — não como uma fase a superar, mas como uma condição a perpetuar.

“Quem mantém o cidadão dependente não precisa convencê-lo de nada. Basta que ele nunca aprenda a andar sozinho.”

Isso não é política social. É engenharia eleitoral. Um eleitorado que depende do Estado para sobreviver não vota contra quem controla o Estado. A lógica é tão simples quanto cruel.

Quem defende a expansão irrestrita desses benefícios costuma se apresentar com a bandeira da compaixão. E aqui está o truque mais sofisticado da política populista: apropriar-se da linguagem do cuidado para exercer controle.

Questionar a dependência estrutural gerada por programas mal desenhados não é falta de empatia — é justamente o contrário. É reconhecer que o ser humano tem capacidade, dignidade e potencial que não podem ser trocados por um depósito mensal de subsistência. É recusar a visão de que o pobre é um ser incapaz, que precisa ser gerenciado em vez de emancipado.

Há uma verdade inconveniente que políticos raramente têm coragem de dizer: quem mantém o pobre dependente não é seu inimigo declarado — é, muitas vezes, aquele que se apresenta como seu maior defensor.

A evidência internacional confirma o que o bom senso já indica. Países que investiram em educação de qualidade, desburocratização e ambiente favorável ao empreendedorismo reduziram a pobreza de forma estrutural. Países que apostaram na transferência crônica de renda sem contrapartida de desenvolvimento de capital humano perpetuaram a pobreza — e, com ela, sua base política.

Há outro personagem nessa história que raramente aparece no debate: aquele que trabalha, paga impostos e financia o sistema. O pequeno empresário que carrega uma carga tributária entre as mais pesadas do mundo. O trabalhador formal que vê parte expressiva do seu salário desaparecer antes mesmo de chegar à sua conta. O empreendedor que desiste antes de começar porque o risco jurídico, trabalhista e fiscal torna o jogo injusto desde o início.

Cada real transferido pelo Estado é um real retirado da economia produtiva. Cada hora gasta por um empresário preenchendo obrigações acessórias é uma hora a menos de inovação, contratação ou crescimento. A burocracia brasileira não é um problema administrativo — é uma barreira estrutural ao florescimento humano.

“Não basta aprender a caminhar se o Estado insiste em colocar obstáculos em cada esquina do caminho.”

Criticar o assistencialismo sem apresentar uma alternativa é politicamente estéril e moralmente insuficiente. A resposta não é abandonar quem precisa de apoio — é transformar esse apoio em plataforma de lançamento, não em âncora.

O que o Brasil precisa é de um Estado que financie a jornada inicial do empreendedor, reduza o custo e o risco de abrir um negócio, ofereça educação técnica e de qualidade, desonere o trabalho formal e depois — e este ponto é crucial — saia do caminho. Que a burocracia não sufoque quem começou a caminhar. Que o sistema tributário não puna quem prospera. Que o ambiente jurídico dê segurança a quem investe e contrata.

O objetivo não é uma sociedade sem solidariedade — é uma sociedade em que a solidariedade não precise ser intermediada por um Estado que cobra pedágio para repassar o que arrecadou de você mesmo.

Este editorial da CGN provavelmente não chegará às mãos de quem mais precisa ouvi-lo. Essa é, em si, uma das tragédias do debate público brasileiro: as pessoas mais afetadas por décadas de paternalismo são também as que têm menos acesso às ideias que poderiam libertá-las.

Mas as ideias circulam. E eleições são decididas também por quem entende o jogo e recusa-se a participar da encenação. Precisamos eleger representantes que tratem o cidadão como adulto capaz — não como beneficiário a ser administrado. Que apoiem os primeiros passos e tenham a coragem de soltar a mão quando for hora.

Porque um país de pessoas que sabem caminhar sozinhas é, no longo prazo, muito mais forte, mais justo e mais livre do que um país de pessoas carregadas no colo — por mais confortável que esse colo pareça no curto prazo.

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