AI segurança internacional: Brasil entra no debate global com foco em cooperação e transparência
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Por Redação CGN
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Especialistas e documentos recentes convergem ao apontar que a globalização, sob lógicas neoliberais de abertura econômica e integração de fluxos financeiros e informacionais, ampliou a velocidade e o alcance de atividades ilícitas. Nesse cenário, grupos criminosos e atores extremistas transbordam do espaço físico para o ciberespaço, diversificando rotas, meios de financiamento e táticas de recrutamento. Para além de operações clássicas, tráfico de drogas, armas e pessoas,, multiplicam-se fraudes digitais, ataques a infraestruturas críticas e lavagem de dinheiro por plataformas tecnológicas. A IA entra como ferramenta de soberania, capaz de transformar dados dispersos em sinais acionáveis e de encurtar o tempo entre detecção e resposta, desde que ancorada por governança robusta.
A trajetória de Fernando Pereira Carvalho explica por que ele pesa nessa discussão. Com 18 anos de experiência operacional, foi diretor operacional e internacional do CATI (Centro Avançado de Técnicas de Imobilização), instrutor de imobilizações táticas e atuou em grupos especiais da Polícia Militar do Paraná. No exterior, coordenou treinamentos com departamentos de polícia nos Estados Unidos, em Portugal e na França, e lecionou a estudantes de Justiça Criminal na Texas State University. No campo institucional, assessorou o Senado Federal nas comissões de Relações Exteriores, Defesa Nacional e Segurança Pública, participando de agendas em Capitólio, Pentágono e Departamento de Estado voltadas à cooperação policial Brasil–EUA.
Segundo seu currículo, uma das pautas discutidas nessas missões foi a “cooperação e treinamento policial entre Estados Unidos e Brasil”, com ênfase em protocolos comuns e atualização técnica. O documento registra, ainda, que Carvalho ministrou cursos a unidades táticas, de SWATs a forças de segurança nacionais, e recebeu reconhecimento acadêmico no Texas. Ao relatar sua experiência em operações e capacitações, o especialista sustenta que padrões interoperáveis e métodos testados em contextos distintos aumentam a confiabilidade de respostas integradas a ameaças que não respeitam fronteiras.
A importância da IA se materializa em frentes complementares. Na inteligência, algoritmos ajudam a detectar anomalias em transações financeiras, identificar padrões de deslocamento suspeitos em fronteiras e cruzar indicadores fragmentados, boletins de ocorrência, bases aduaneiras, decisões judiciais, para priorizar alvos de investigação. Na prevenção, modelos preditivos apontam áreas e horários de maior probabilidade de incidentes, orientando o despacho de recursos e a vigilância situacional. No controle de fronteiras e de cargas, visão computacional e verificação multimodal aceleram inspeções sem dispensar o crivo humano. Em operações de grande porte, IA pode apoiar a gestão do comando e controle, consolidando fluxos de rádio, vídeo e sensores em painéis de consciência situacional.
No Brasil, o debate se cruza com a crítica ao déficit de integração entre forças e bases de dados, assim como com a necessidade de regras claras para contratação, auditoria e uso de sistemas algorítmicos. Propostas como a de um Plano de IA com foco social, centrado em princípios de acesso, transparência e soberania tecnológica, reforçam que a segurança pública precisa ser incluída de maneira explícita, tanto no desenho de casos de uso quanto na avaliação de impacto. A ausência de diretrizes setoriais favorece soluções fechadas e pouco auditáveis; a presença delas cria um mercado regulado que estimula inovação explicável, com métricas de desempenho, gestão de vieses e trilhas de auditoria.
No plano internacional, relatórios recentes sobre crime organizado na América Latina descrevem a porosidade de fronteiras e a capilaridade de facções que diversificam receitas com o cibercrime. O elo entre economias ilegais e violências locais aparece nas cidades, onde se sobrepõem disputas por território, lavagem de ativos e recrutamento juvenil via redes sociais. Para formuladores de políticas, a pergunta prática não é se a IA deve entrar, mas em que condições: quais dados podem ser usados, com quais limites, supervisionados por quais instâncias e com que mecanismos de prestação de contas à sociedade.
Carvalho argumenta, com base em sua passagem por forças policiais e pelo Legislativo, que o caminho viável combina três dimensões: capacidade técnica, governança e cooperação. Na capacidade técnica, inclui a formação de quadros públicos em ciência de dados aplicada à segurança, a atualização de protocolos de coleta e qualidade de dados e a institucionalização de equipes multidisciplinares (peritos, analistas, juristas, operadores). Na governança, destaca a necessidade de normas de uso (finalidades legítimas, minimização de dados, retenção limitada), auditorias independentes e transparência sobre os modelos, especialmente quando impactam liberdades individuais. Na cooperação, propõe exercícios conjuntos, intercâmbio com centros de excelência e acordos de assistência jurídica mútua que contemplem evidências digitais e cadeia de custódia transnacional.
A construção de um discurso público sobre IA e segurança internacional, sugere o especialista, precisa evitar extremos. De um lado, o tecnosolucionismo que superestima o alcance da automação; de outro, uma recusa que deixa o Estado dependente de ferramentas clandestinas ou de um mercado opaco. O eixo do discurso deve se apoiar em interdisciplinaridade, segurança, direito, computação, sociologia, economia política, e em evidências de efetividade: custos evitados, tempo de resposta reduzido, investigações qualificadas e queda de vitimização. É essa linguagem de resultado mensurável que tende a ganhar legitimidade perante a opinião pública e os órgãos de controle.
Nos bastidores operacionais, experiências de treinamento ajudam a traduzir tecnologia em prática. Relatos de campo de Carvalho, do trabalho com SWATs a formações para Forças Armadas e policiais brasileiras, sublinham que procedimentos, doutrina e treino repetitivo são os vetores que tornam a tecnologia segura e eficaz. A IA, nesse desenho, serve como multiplicador de força, não como substituto do julgamento profissional. Em ambientes críticos (portos, aeroportos, fronteiras secas), pilotos controlados podem validar sistemas de classificação de risco e leitura automática com métricas de falsos positivos/negativos, antes de qualquer escalonamento nacional.
Outra chave do discurso é enfrentar riscos conhecidos: viés algorítmico que pode reproduzir discriminações; efeitos de deslocamento (quando o crime migra para brechas não monitoradas); e dependência tecnológica de fornecedores estrangeiros. Para isso, fontes ouvida pela reportagem defendem cláusulas de portabilidade de modelos, documentação técnica (cartões de modelo e de dados), sandbox regulatório com participação de Ministério Público e Defensorias e painéis públicos com indicadores de desempenho. O objetivo é duplo: ganhar eficiência sem erosão de garantias.
No nível estratégico, a IA pode ampliar a capacidade brasileira de cooperação internacional, área em que o especialista tem atuação consolidada. Ao criar protocolos de dados compatíveis e padrões de segurança cibernética alinhados a parceiros, o país facilita investigações conjuntas, extradições e rastreamento financeiro. A experiência relatada por Carvalho com delegações a Washington e articulações com comitês do Senado sugere que coordenação diplomática e técnica não é luxo, mas condição de eficácia contra redes que operam em múltiplas jurisdições.Em síntese, a IA já não é “opção futurista”, mas infraestrutura crítica da segurança internacional. No Brasil, a construção de um discurso responsável, claro nos objetivos, transparente nos limites e avaliável em resultados, pode alinhar inovação tecnológica a interesses públicos e compromissos democráticos. O papel de especialistas como Fernando Pereira Carvalho é oferecer ponte entre a experiência de campo e o desenho de políticas, evitando atalhos retóricos e centrando a conversa em cooperação, técnica e direitos, elementos essenciais para que a tecnologia sirva ao bem comum e fortaleça a confiança social nas instituições.
Por Jonathan Vieira Anísio, em 05 de Janeiro de 2026