Cascavel no centro do agro: mecanização cresce, mas dependência de emendas acende alerta para o futuro

Os desafios da agricultura e negócios no show rural Coopavel e a execução de recursos públicos no setor agrícola...

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Por Redação CGN

A forma como o dinheiro público vem sendo direcionado para o campo ajuda a explicar boa parte do debate atual sobre mecanização agrícola no Brasil. Em 2025, a compra de máquinas agrícolas e veículos liderou a liberação de recursos por meio de emendas parlamentares, concentrando os maiores valores empenhados no Orçamento da União. Somente para máquinas e implementos agrícolas, os empenhos ultrapassaram a casa de R$ 1 bilhão, superando áreas sensíveis como infraestrutura rural estruturante e políticas de longo prazo. Apesar do volume expressivo autorizado, a execução efetiva — ou seja, o dinheiro que de fato chegou na ponta — foi significativamente menor, revelando um descompasso entre a decisão política e a entrega real no campo. É a partir desse cenário que se impõe uma reflexão mais ampla: o que essa escolha diz sobre o modelo de financiamento da mecanização agrícola no Brasil e quais riscos ela projeta para o futuro do setor?

A liderança da compra de máquinas agrícolas entre os recursos liberados por emendas parlamentares em 2025 não é um fato isolado. Ela se conecta a uma trajetória de mais de duas décadas de mecanização no campo brasileiro — e, ao mesmo tempo, expõe riscos estruturais que podem comprometer a eficiência do agronegócio no médio e longo prazo.

Com mais de R$ 1 bilhão empenhado apenas para a aquisição de máquinas agrícolas no último ano, o dado reforça algo já conhecido: mecanizar é prioridade. A dúvida que cresce, porém, é como e com que critério esses investimentos estão sendo feitos.

Segundo o professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Marco Antônio Carvalho Teixeira, as aplicações para máquinas e equipamentos agrícolas, além dos repasses a instituições de caráter assistencial, cultural e educacional, mostram uma estratégia eleitoral dos parlamentares, onde soluções de curto prazo para os municípios são privilegiadas em busca de consolidar um eleitorado para as próximas eleições.

“Você entrega isso direto para o eleitor, para o cliente, para o cidadão, para a organização, chame como quiser. Obviamente, isso consolida ainda mais a lealdade eleitoral de quem está recebendo para com quem doa, e isso deixa na posição de quem doa como sendo alguém indispensável de permanecer no sistema político, porque vai ser o parlamentar que vai continuar escoando o recurso que pessoas e organizações querem”, disse.

20 anos de mecanização: do trator à tecnologia

Desde o início dos anos 2000, o Brasil acelerou a mecanização agrícola impulsionado por três fatores principais:

  • expansão do crédito rural,
  • crescimento da produção de grãos,
  • necessidade de ganhos de produtividade.

Na primeira fase, o foco esteve na substituição do trabalho manual por tratores, plantadeiras e colheitadeiras. Já na última década, o avanço foi tecnológico: agricultura de precisão, máquinas conectadas, automação e gestão por dados passaram a fazer parte da rotina do produtor.

Esse movimento consolidou o país como um dos maiores mercados de máquinas agrícolas do mundo e levou o setor a faturamentos históricos. O problema é que, nos últimos anos, parte relevante dessas aquisições passou a depender menos do planejamento produtivo e mais da intermediação política.

Quando a emenda substitui a política pública

O financiamento via emendas parlamentares traz um risco central: emenda não é política pública.

Ela nasce para atender bases eleitorais, não para estruturar cadeias produtivas. Quando a mecanização agrícola depende excessivamente desse mecanismo, surgem distorções recorrentes:

  • máquinas compradas sem estudo técnico;
  • equipamentos incompatíveis com a realidade local;
  • tratores parados por falta de operador ou manutenção;
  • investimentos concentrados em anos eleitorais.

Órgãos como o Tribunal de Contas da União e a Controladoria-Geral da União já apontaram, ao longo dos anos, problemas desse tipo em diversos estados.

No papel, o recurso existe. No campo, a produtividade nem sempre acompanha.

O risco da dependência política

Outro efeito colateral pouco discutido é a instabilidade. Emendas variam conforme:

  • articulações no Congresso Nacional,
  • interesses políticos do momento,
  • negociações com o governo federal.

Isso cria ciclos artificiais: excesso de compras em um ano, retração no seguinte. Para a indústria, cooperativas e produtores, o resultado é incerteza, encarecimento e dificuldade de planejamento.

Além disso, municípios que recebem máquinas via emenda passam a concorrer com produtores que financiam seus equipamentos no mercado, criando distorções econômicas e reduzindo o estímulo ao investimento privado local.

Cascavel como contraponto: técnica, mercado e planejamento

É nesse cenário que Cascavel ganha protagonismo nacional. Neste mês de fevereiro, a cidade sedia mais uma edição do Show Rural Coopavel, uma das maiores feiras do agronegócio da América Latina. O evento representa exatamente o oposto da lógica das emendas:

  • escolha baseada em comparação técnica,
  • acesso a crédito estruturado,
  • decisões orientadas por produtividade,
  • foco em tecnologia, eficiência e sustentabilidade.

Ao longo de décadas, o Show Rural ajudou a moldar o padrão de mecanização do Oeste do Paraná, conectando produtores, indústria, cooperativas e pesquisa. Não é apenas uma feira: é um termômetro do rumo que o agro brasileiro pretende seguir.

O que a história indica para o futuro

Se a mecanização continuar avançando sem planejamento e excessivamente dependente de emendas, o Brasil corre o risco de:

  • desperdiçar recursos públicos,
  • criar parques de máquinas subutilizados,
  • travar a inovação tecnológica real,
  • politizar um setor que precisa de previsibilidade.

Por outro lado, se as emendas forem usadas de forma complementar, integradas a políticas de crédito, assistência técnica e planejamento regional, podem ter papel positivo — mas nunca central.

A mecanização agrícola é vital para o Brasil, para o Paraná e para Cascavel. A história dos últimos 20 anos mostra isso com clareza. Mas também ensina uma lição dura: máquina sem estratégia vira custo, não investimento.

Enquanto o Show Rural aponta caminhos baseados em técnica, mercado e inovação, o uso indiscriminado de emendas parlamentares acende um alerta. O futuro do agro passa menos por palco político e mais por decisões bem fundamentadas — algo que o campo, quando bem ouvido, sempre soube fazer.

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