Médica e farmacêutico da Clínica Revive são julgados em Cascavel

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Por Fábio Wronski

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Teve início na manhã desta terça-feira (25), na 1ª Vara Criminal de Cascavel, o julgamento do farmacêutico Tiago Tomaz da Rosa e da médica Carolina Milanezi Bortolon. Ambos são suspeitos de realizar procedimentos estéticos irregulares que teriam causado lesões graves e danos irreversíveis à saúde de pacientes. O casal responde pelos crimes de estelionato qualificado, lesão corporal gravíssima e exercício ilegal da profissão, conforme previsto no Código Penal.

A ação penal foi instaurada após denúncia da paciente Raquel Roseli Demichei Dornelles, moradora de Cascavel, que relatou ter sofrido graves consequências após se submeter a um procedimento estético na clínica do casal. Segundo os autos, Raquel procurou o estabelecimento para a aplicação de Sculptra, um bioestimulador de colágeno utilizado para melhorar a firmeza da pele. Contudo, logo após o procedimento, a paciente apresentou reações adversas severas, incluindo inchaços e deformações faciais.

Em depoimento, a vítima, Raquel Roseli Demichei Dornelles, expressou o nervosismo ao enfrentar o julgamento e destacou a importância do dia. “Então, hoje eu tô bem nervosa, é um misto de sentimentos, como eu havia falado, porque é um dia muito importante, né? É o dia desse julgamento e a gente espera muita coisa pra esse dia. E o nervosismo, ele é devido a tudo que eu vou ter que, hoje, falar, recordar, né? Os sentimentos, a tristeza, a dor de ter vivido tudo isso, de estar com o PMMA no meu rosto hoje, que é algo que eu não consenti, né? E tudo que eu venho falando e passando, e os tratamentos que eu venho tentando, pra tentar amenizar um pouco os danos. Então, mas é um dia importante, mas… É um dia importante”, afirmou.

A advogada de Raquel, Alyne Gaspar, ressaltou que o julgamento representa um momento crucial para o esclarecimento dos fatos. “É um dia importante, onde a verdade, ela vai ser constatada e estabelecida. Então, é algo que vai fazer toda a diferença aí, do desfecho dessa história.”

De acordo com as investigações, a paciente contratou, em junho de 2023, a aplicação de Sculptra (ácido poli-L-láctico), mas, em vez disso, foi utilizada em seu rosto uma substância diferente: PMMA (polimetilmetacrilato). O PMMA é um preenchedor permanente não indicado para procedimentos estéticos faciais devido ao alto risco de complicações irreversíveis, como necrose tecidual, inflamações crônicas, infecções e deformidades permanentes. O produto não é recomendado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para essa finalidade.

Raquel relatou as dificuldades enfrentadas durante os dois anos de espera por respostas. “Difíceis, né? Volte e meia, uma hora eu tô bem, uma hora eu tô ruim. Essa semana, acho que retrasada, eu tive que aplicar corticoide novamente no meu rosto, porque, aparentemente, não ficou aparecendo nada mais por dentro. Então, eu tô cheia de nódulos, tem uma massa, isso aqui é duro, tem dias que incha, que dói. Então, eu venho vivendo isso no meu dia a dia e tentando me adaptar com isso.”

A denúncia, inicialmente feita à CGN, trouxe o caso à tona e motivou uma série de ações por parte da Polícia Civil e do Ministério Público estadual. As investigações apontaram indícios de autoria e materialidade delitiva, com relatos de vítimas que afirmam ter sido induzidas em erro por meio de procedimentos fraudulentos realizados na clínica, resultando em graves danos físicos e, segundo apuração, em consequências irreversíveis para a saúde das pacientes.

Raquel destacou que sua expectativa é por justiça. “Eu espero que seja feita a justiça. Vamos aguardar o juiz aí, né? Vamos ver a decisão dele aí. Eu espero que seja feita a justiça.”

A vítima também alertou para os riscos do uso do PMMA, que não se restringem ao campo estético, mas podem comprometer o funcionamento de órgãos como os rins. “Essa substância, ela não causa somente algo estético. Ela influencia diretamente em todo o funcionamento do organismo. A função renal também pode ser comprometida. Então, é complicado e é importante que as pessoas pensem e busquem informação quando for fazer qualquer procedimento estético.”

Ao relatar o impacto de receber a notícia de que os danos são irreversíveis, Raquel afirmou: “É difícil, né? Porque tudo que eu venho fazendo, na realidade, hoje eu corro riscos, né? De ficar com feridas. Qualquer procedimento que eu tente fazer aqui pra tentar amenizar um pouco, né? O volume de um lado que tá maior e essa massa dura que tem aqui dentro, os nódulos. Tudo eu corro riscos. Eu procurei uma outra médica especialista de dermatologia em São Paulo e ela queria me fazer um tratamento alternativo pra eu não ter um problema nos rins. Então, essa foi a parte mais difícil que eu tive que ouvir porque é um tratamento difícil que você toma um medicamento que parece que baixa a tua imunidade pra tentar… Eu não entendi muito bem direito, mas aí você baixa a imunidade é como se você tivesse uma doença, né? É horrível. Aí eu conversei com o meu outro médico daqui e a gente optou porque, por enquanto, eu não vou fazer esse tratamento de lá. Por enquanto, eu vou fazer um tratamento mais conservador até porque, assim, se baixar a minha imunidade, né? Eu fico sujeita a outros tipos de problemas. E aguardar. E fazer um acompanhamento agora. Tenho feito por causa dos rins, tudo. Cada seis meses a gente faz os exames. E aguardar. E que isso fique de alerta pra todos, né?”

Por fim, Raquel agradeceu aos que a apoiaram durante o processo. “Eu agradeço. Agradeço a imprensa, a minha advogada que tá aqui, que me acompanhou, meu esposo, a minha família. Hoje gostaria de dizer que eu agradeço a minha família, né? Todo mundo. O meu doutor que hoje tá aqui. A gente sabe que é uma coisa também constrangedora. Mas precisa. Nós precisamos estar aqui. Obrigada.”

O julgamento está sendo conduzido pelo juiz Marcelo Carneval. A CGN acompanha o andamento do caso e divulgará o resultado ao final da apuração judicial.

A entrevista foi cedida pela RicTV Oeste.

Resumo do que aconteceu

Chocante: O que aconteceu com a paciente que ficou com o rosto deformado após procedimento estético em Cascavel?
R: A empresária Raquel Roseli Demichei Dornelles ficou com o rosto deformado após realizar um procedimento estético na Clínica Revive, em Cascavel, no Paraná. Ela contratou a aplicação de Sculptra, mas laudos médicos e biópsia confirmaram que foi injetado PMMA, uma substância plástica de uso restrito, causando inchaços, nódulos e deformidades faciais irreversíveis.
Quem são os principais acusados no escândalo da clínica de estética de Cascavel?
R: Os principais acusados são o farmacêutico Tiago Tomaz da Rosa, conhecido como 'Doutor Milagre', e a médica Carolina Milanezi Bortolon, sócios da Clínica Revive. Eles respondem por estelionato qualificado, lesão corporal gravíssima e exercício ilegal da profissão.
Por que o caso ganhou tanta repercussão nacional?
R: O caso ganhou repercussão pela gravidade das lesões, o uso de substância proibida, denúncias de procedimentos irregulares, impactos emocionais severos nas vítimas e suspeitas de práticas ilícitas cometidas por profissionais de saúde, incluindo a realização de cirurgias plásticas por um farmacêutico não autorizado.
O que é PMMA e por que ele é considerado perigoso em procedimentos estéticos?
R: O PMMA (polimetilmetacrilato) é uma substância plástica permanente, não absorvível, usada apenas em casos restritos, como deformidades causadas por doenças. Seu uso em estética é desaconselhado pela Anvisa e sociedades médicas devido ao alto risco de inflamações, necrose, deformidades irreversíveis e até insuficiência renal.
Como foi descoberta a troca do Sculptra pelo PMMA no procedimento de Raquel?
R: Após meses de sofrimento e tentativas de correção na própria clínica, Raquel procurou um especialista que solicitou biópsia facial. O exame confirmou a presença de PMMA, e o próprio farmacêutico Tiago admitiu ter cometido o erro, mas não informou a paciente imediatamente.
Quantas vítimas já denunciaram a Clínica Revive e quais complicações relataram?
R: Até fevereiro de 2025, pelo menos nove vítimas foram ouvidas pela Polícia Civil, com relatos de queimaduras por fenol, necrose, deformações por PMMA e problemas renais. Uma paciente relatou necrose nas nádegas após procedimento de Sculptra, além de sofrimento físico, emocional e prejuízo financeiro.
A clínica e os profissionais foram presos?
R: Não, até o momento os sócios da clínica não foram presos, mas tiveram seus registros profissionais suspensos e estão proibidos de se aproximar de vítimas e testemunhas por decisão judicial.
Quais irregularidades foram encontradas na fiscalização das autoridades na Clínica Revive?
R: A fiscalização do Conselho Regional de Farmácia e de Medicina encontrou procedimentos médicos realizados ilegalmente por Tiago, prescrição irregular de medicamentos, prontuários incompletos, armazenamento inadequado de produtos e impedimento de fiscalização pela médica Carolina.
O que dizem as defesas de Tiago Tomaz da Rosa e Carolina Milanezi Bortolon?
R: A defesa alega que os procedimentos foram realizados dentro das normas técnicas, que os riscos foram esclarecidos e que Carolina não participou diretamente do procedimento questionado. Negam dolo e afirmam que complicações podem ser riscos inerentes aos procedimentos.
Como a Justiça tem se posicionado diante das denúncias e pedidos das partes?
R: A Justiça negou o pedido da clínica para censurar publicamente a paciente, entendendo que suas críticas não configuram abuso. Também negou o bloqueio de bens e apreensão de passaporte do farmacêutico por falta de provas de tentativa de fuga.
O que diz a vítima Raquel sobre o impacto do procedimento em sua vida?
R: Raquel relata dores constantes, presença de nódulos, inchaço, risco de complicações renais, impactos emocionais graves, isolamento social, afastamento do trabalho e despesas elevadas com tratamentos corretivos.
O que as investigações revelaram sobre outros procedimentos realizados por Tiago Tomaz da Rosa?
R: Foram identificados diversos procedimentos não autorizados para farmacêuticos, como aplicação de PMMA, transplante capilar, cirurgias plásticas e remoção de lesões, além de prescrição de medicamentos fora das normas da profissão.
Que medidas estão sendo tomadas pelas autoridades reguladoras e policiais?
R: A Polícia Civil instaurou inquéritos, realizou buscas e apreensões na clínica e residência dos investigados, recolheu documentos, computadores e caixas de PMMA. Os Conselhos de Farmácia e Medicina abriram processos administrativos e criminais e podem interditar a clínica e cassar registros profissionais.
A Anvisa e o Conselho Federal de Medicina já se posicionaram sobre o uso do PMMA?
R: Sim. Em 2024, a Anvisa proibiu o uso de fenol em estética, e o Conselho Federal de Medicina solicitou o banimento do PMMA no Brasil, devido ao aumento de complicações graves e riscos à saúde.
Qual a situação atual do processo judicial contra a Clínica Revive?
R: O julgamento criminal teve início em novembro de 2025, mas foi adiado para maio de 2026 devido à ausência da médica Carolina, que está em gravidez de risco, e para ouvir mais testemunhas. O caso segue sem sentença definitiva.
Houve tentativa de responsabilizar a paciente pelas complicações?
R: A defesa da clínica alegou que possíveis complicações poderiam ser resultado de cuidados inadequados no pós-operatório pela paciente e que ela já teria histórico de procedimentos estéticos anteriores.
Quais foram as consequências emocionais e financeiras para as vítimas?
R: As vítimas relataram sofrimento extremo, necessidade de curativos diários, afastamento do trabalho, perdas financeiras, ansiedade, depressão, isolamento social e despesas elevadas com tratamentos médicos e substituição de bens danificados.
Por que a clínica tentou censurar publicamente a vítima?
R: A clínica entrou com ação para proibir a paciente de mencionar seus nomes publicamente, alegando campanha difamatória, mas a Justiça entendeu que as críticas eram legítimas e alertavam terceiros sobre os riscos do procedimento.
Que riscos o uso de PMMA representa para a saúde?
R: O PMMA pode causar inflamações crônicas, deformidades permanentes, necrose, nódulos, infecções e até insuficiência renal, especialmente quando aplicado por profissionais não médicos ou em locais não autorizados.
O escândalo pode mudar as regras para procedimentos estéticos no Brasil?
R: O caso já motivou pedidos de proibição do PMMA no país e acendeu o alerta para maior fiscalização e rigor nas normas de procedimentos estéticos, além de reforçar a importância de buscar profissionais qualificados e autorizados.
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