Analistas criticam postura do Brasil com a China

Na declaração conjunta, Brasil e EUA defenderam que o princípio de economia de mercado tem de valer para todos os integrantes da OMC, de forma a...

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Por Agência Estado

Na última terça-feira, o Brasil assinou com os Estados Unidos uma declaração à Organização Mundial do Comércio (OMC) com críticas veladas à atuação da China no comércio internacional, dando mais uma demonstração de alinhamento do governo Bolsonaro com o governo Trump e sinalizando que o País poderá tomar partido na disputa comercial que se arrasta desde o ano passado entre as duas maiores economias do mundo. Com o crescimento do peso da China no comércio exterior brasileiro, é tudo o que o governo não deveria fazer, dizem analistas ouvidos pelo Estadão.

Na declaração conjunta, Brasil e EUA defenderam que o princípio de economia de mercado tem de valer para todos os integrantes da OMC, de forma a garantir condições equitativas de competição econômica no comércio internacional. Para ambos os países, as atuais regras da entidade não serviriam para a China, cuja economia é fortemente marcada pela intervenção do Estado.

“O Brasil não ganha nada com isso. Nossa tradição é mais multilateral”, afirmou Lia Valls, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV. Ela lembra que a relação sino-brasileira divide o governo, com o tom belicoso do Itamaraty muitas vezes compensado pelo pragmatismo do Ministério da Agricultura. “O governo tem de atender a interesses de diversos grupos, não dá para ficar só na questão ideológica”, afirmou a pesquisadora.

Para o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, um dos problemas do alinhamento automático com os EUA é que, na arena do comércio internacional, brasileiros e americanos também são concorrentes. E as duas maiores potências agrícolas do planeta têm a China como principal mercado.

Antes da declaração conjunta com os EUA, integrantes do governo já haviam feito vários ataques à China, o que levou representantes do agronegócio a pedir uma mudança de postura, dado o receio de eventual retaliação por parte das autoridades chinesas. O ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, por exemplo, chegou a insinuar que os chineses se beneficiaram da crise do coronavírus e postou imagens do personagem Cebolinha na muralha da China trocando o “L” pelo “R”, em alusão à alegada fala dos chineses. Depois, apagou a postagem.

Em reação, a Embaixada da China no Brasil respondeu que as publicações eram “completamente absurdas e desprezíveis, que têm cunho fortemente racista e objetivos indizíveis, tendo causado influências negativas no desenvolvimento saudável das relações bilaterais China”.

Prejuízo

As rodadas de acordos para interromper a disputa comercial entre China e EUA – que não chegaram a ser efetivamente implementados – incluíam cotas das vendas de soja americana para os chineses. Ou seja, o agronegócio brasileiro poderia sair perdendo, no curto prazo, caso a disputa comercial chegasse ao fim.

Para Castro, da AEB, o Brasil deve se aproximar dos americanos, mas sem alianças formais. “Os americanos são práticos e preservam seus interesses diretos. Para eles, é ‘amigos, amigos; negócios à parte'”, disse ele.

Esse distanciamento coincide com o aumento da dependência das exportações brasileiras para a China, principalmente de produtos básicos. Já a indústria ainda sofre com elevados custos de insumos, infraestrutura deficiente e alta carga tributária, que fazem com que os produtos industrializados brasileiros cheguem caros demais ao exterior. A AEB projeta que a exportação de manufaturados ficará em US$ 56,3 bilhões este ano, 27,3% abaixo de 2019 – valor semelhante ao registrado em 2004.

Procurado, o Palácio do Planalto indicou como porta-voz o Itamaraty, que não se pronunciou. Da mesma forma, o Ministério da Agricultura foi questionado sobre as possíveis consequências da postura do governo brasileiro para o setor, mas também não respondeu até o publicação desta matéria. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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