‘Duetos’ transforma angústias do amor em comédia de primeira linha no teatro

O recurso explorado pelo cenógrafo J.C. Serroni não é exatamente original. Já foi usado, por exemplo, por Helio Eichbauer (1941-2018) em Doce Deleite, peça dirigida por...

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Por Agência Estado

Em cada extremidade do palco há um camarim. É lá que a atriz Patricya Travassos e o ator Eduardo Moscovis trocam de roupa, retocam a maquiagem e fazem as transições das quatro cenas do espetáculo Duetos, dirigido por Ernesto Piccolo, em cartaz no Teatro Faap até 29 de outubro. A comédia escrita pelo inglês Peter Quilter apresenta a dupla de artistas dividida em quatro personagens que perseguem ou procuram manter uma sólida parceria de vida.

O recurso explorado pelo cenógrafo J.C. Serroni não é exatamente original. Já foi usado, por exemplo, por Helio Eichbauer (1941-2018) em Doce Deleite, peça dirigida por Marília Pêra (1943-2015) com Reynaldo Gianecchini e Camila Morgado em 2008, mas é inegavelmente funcional e fortalece a cumplicidade do público ao criar uma metalinguagem entre as tramas da ficção e as etapas do fazer teatral. Patricya e Moscovis, rostos conhecidos pela televisão, assumem diferentes tipos aos olhos do espectador, às vezes mais ou menos visíveis pela iluminação criada por Aurélio de Simoni, e endossam a ilusão do teatro, sendo esta opção estética apenas um dos méritos de Duetos.

A comédia de esquetes foi um gênero muito profícuo no teatro brasileiro nas décadas de 1980 e 1990 e, depois do sucesso do stand-up comedy, caiu no esquecimento. O comediante imperou com o talento para o improviso e dispensou a sólida dramaturgia e o desafio da caracterização de personagens – um verdadeiro teste capaz de peneirar os bons atores e atrizes. A construção empreendida por Patricya e Moscovis, que quase nunca escorregam na caricatura, apoiada pelos consistentes textos de Quilter fazem de Duetos uma comédia sofisticada e acessível em um tempo que o público procura dar risadas.

Em Encontro às Cegas, Moscovis e Patricya interpretam os solteiros que se descobrem através de um aplicativo de paquera e, apesar das inúmeras tentativas de agradar um ao outro, fica evidente a solidão mútua. Ótimo, Moscovis já enterra as expectativas de quem foi a teatro ver o galã das novelas na pele do atrapalhado Jonathan, e Patricya injeta uma bem-vinda melancolia clownesca em Wanda. Um certo desconsolo disfarçado de humor ácido pontua Quase Casados, a segunda história. Ary é um homossexual convicto, chefe e confidente da apaixonada secretaria Jane, que não disfarça o quanto acredita que, inclusive, seria possível um romance entre os dois.

Mais popular das quatro cenas, Divórcio Amigável segue o tom das comédias rasgadas, porém sem perder a ternura. Shirley e Beto compraram um pacote turístico para os mares de Espanha e, mesmo em fase de separação, viajam juntos para se afogarem em drinques e baladas. Os ciúmes, as carências e as dependências mútuas se escancaram e fica fácil fazer a plateia gargalhar diante do retrato fiel dos casais traídos pelo cotidiano. Por fim, Mais Uma Vez Noiva surge como a história que mais abre possibilidades de leituras. Pouco antes da cerimônia, ngela entra em conflito se deve se casar pela terceira vez e correr o risco de mais um fracasso. Ela recorre ao ombro de Tobias, seu irmão e voz da sua consciência, que torce de todas as maneiras para que ela não desista de tentar novamente a felicidade no amor.

No Brasil, Quilter teve montadas as peças Gloriosa (2009), protagonizada por Marília Pêra, e A Atriz (2015), com Betty Faria à frente do elenco. Nas duas comédias, o dramaturgo exercitou a delicadeza de extrair graça a partir de temas difíceis, no caso, o de uma cantora sem qualquer talento vocal e o de uma veterana estrela que reconhece a hora da aposentadoria. Sob a embalagem cômica, Duetos discute sentimentos e angústias tão contemporâneos que envolvem facilmente a plateia e traz tudo o que o público espera de um entretenimento para tornar leve o seu fim de semana.

A direção de Ernesto Piccolo, entretanto, reforça que Duetos é uma comédia reflexiva, por vezes, melancólica – o que é positivo para gerar a identificação – e reúne uma atriz e um ator em perfeita sintonia e visivelmente felizes com o trabalho. Diante destes atrativos, o público responde com risadas e até aplausos abertos em muitas das ações da dupla, e o Teatro Faap abriu, inclusive, sessão extra, na tarde de sábado, para atender a demanda por ingressos, algo cada vez mais raro hoje em dia.

Serviço

Duetos (80min).

Teatro Faap. Rua Alagoas, 903, Higienópolis.

Sexta, 20h; sábado, 17h e 20h; domingo, 18h.

R$ 39,50 (preço popular, mezanino) e R$ 150,00 (plateia).

Até 29 de outubro.

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